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1.2.06

Mélancolie. Génie et folie en Occident - O que é a melancolia?

Um certo Théodulfe d'Orléans, poeta medieval, mostra que acedia, tristitia e melancolia são palavras sinónimas [apud Saturne et la mélancolie, p. 138 - cito a tradução francesa, e não o original latino que também aí é transcrito]: «Pour elle le chagrin est sans désastre, l'affliction n'a point de nom, / Mais c'est une sombre illusion qui possède l'intime de son coeur. / Tantôt le sommeil la tient, tantôt des silences pesants s'emparent d'elle; / Elle marche en ronflant et se tait en murmurant. / Celui-ci est assis à ne rien faire, il dort les yeux ouverts. / Et, ne disant mot, croit parler de bien de choses. / Le geste est mou, la retraite inactive, l'oubli engourdissant. / Et il ne porte rien de bien arrêté ni en l'esprit ni aux lèvres...».

Como se pode constatar, a melancolia é uma ilusão sombria - só falta ter sido escrito negra, a cor da bílis que a provoca - que se apodera do íntimo do coração, provocando sono e silêncios pesados, o que leva a que este homem esteja sentado sem nada fazer, dormindo de olhos abertos e, apesar de crer estar a falar de muitas coisas, nada dizendo. Ou seja: a melancolia é a suspensão do gesto [cf. Agamben, Stanze]. Todavia, para além da suspensão do gesto, há algo mais: gesto frouxo, parado, propenso ao esquecimento. Ou seja: aos traços psicológicos juntam-se traços físicos.

Que esta tipologia não é da Idade Média, sabêmo-lo. Remonta à Grécia antiga, aos pitagóricos. De facto, para os pitagóricos o número emblemático, raiz e fonte da natureza eterna, era o quatro. Quatro estações: primavera, verão, outono, inverno. Quatro idades do homem: criança, jovem, adulto, velho. Quatro humores: sangue (qualidades: quente e húmido), bílis amarela (quente e seco), bílis negra (frio e seco), fleuma (frio e húmido). Note-se que, na articulação das estações e das idades do homem com os humores, a sequência é rigorosamente esta. É, pois, com os pitagóricos que é lançada a doutrina dos quatro humores. Entretanto, esta tipologia, que pretendia estabelecer uma conexão entre o macrocosmos (o universo) e o microcosmos (o homem), apresentava lacunas. Como é que esses humores estavam distribuídos no corpo? Como é que esses humores reagiam quando um se sobrepunha aos outros? Como é que esta tipologia podia abranger todos os homens?

É com o Problema XXX, 1, que pode ser lido neste livro ou neste (pp. 49-75), aparentemente de Aristóteles mas, seguramente, da escola peripatética, que surge uma mudança de paradigma. Por um lado, faz-se aí a distinção entre o homem normal, sujeito a distúrbios melancólicos temporários, e o melancólico natural, que é normalmente anormal. Por outro lado, a melancolia afecta a alma. Por fim, para «Aristóteles», a melancolia - à semelhança do furor platónico, no Fedro, em que o furor divino se traduz na «aristotélica» melancolia natural e o furor enquanto doença humana se traduz na «aristotélica» melancolia patológica -, a melancolia, melhor, a melancolia natural implica o génio.

Depois de «Aristóteles» regressa-se, por assim dizer, à doutrina dos quatro humores, com os seus quatro elementos primordiais: ar (elemento sublinhado por «Aristóteles»), terra, fogo, água (afinal, as qualidades acima referidas). E, numa articulação de características, passíveis de estabelecer uma tipologia cada vez mais precisa, estabelece-se o sistema dos Quatro Temperamentos (sanguíneo, colérico, melancólico, fleumático). Aí, grosso modo, a melancolia é sinónimo de riqueza alcançada por meios pouco lícitos e de avareza. É esse, aliás, o retrato presente nas iluminuras medievais. Que os pensadores medievais também partilham, indo mesmo mais longe. A bílis negra, a melancolia, no mito adâmico, está representada pela maçã, donde é a serpente, o demónio. Como demoníacas são as pessoas melancólicas. E, agora, compreende-se a reprodução que encima este texto. Os quatro demónios (quatro, como não podia deixar de ser), enquanto alegoria dos pecados capitais (note-se que os pecados capitais estavam conectados com os quatro temperamentos), tentam o santo. Ou seja: a melancolia afasta o homem de Deus. Todavia, na mesma Idade Média, outros autores consideram que a melancolia aproxima o homem de Deus, porque a melancolia é sinal de êxtase, de luz divina. Como, aliás, o melancólico pode ser capaz de actos adivinhatórios.

É deste labirinto que nasce Melencolia I de Dürer, propiciadora, como o Problema XXX, 1 de «Aristóteles», de nova mudança de paradigma. Mas, isso é matéria para próxima análise.