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14.4.08

Em torno de 1900. Matisse e Rodin

Quando, em 1900, Matisse visitou o atelier de Rodin, este ficou indiferente aos esboços que Matisse lhe mostrou. E advertiu-o, mesmo, que esses esboços eram típicos da École des Beaux-Arts, cujos ensinamentos Matisse rejeitava. É certo que Rodin, por seu lado, mantinha em duas esferas o seu trabalho (cf. Leo Steinberg): uma esfera pública (mais tradicional, usando o mármore) e uma esfera privada (usando o bronze e de que

Rodin, Monument to Balzac, 1898, MoMA, NYC

Monument to Balzac (1898) é ponto de partida - repare-se como há, aí, a ausência do tradicional sentido de expressividade).

Desconhece-se se Matisse, aquando dessa visita a Rodin, já estava a trabalhar em

Matisse, The Serf, 1900-3, MoMA, NYC

The Serf (1900-3). Mas que há, aqui, uma resposta a

Rodin, The Walking Man, 1900

The Walking Man (1900) de Rodin, isso parece consensual. De facto, como escreve Leo Steinberg, The Walking Man não está a andar, tem os pés presos no chão, mas, em contrapartida, The Serf está - é um facto - estático, auto-contido. E na maleabilidade do corpo, em que a dinâmica da volumetria acentua a fealdade, encontra-se um dos primeiros anti-monumentos da modernidade, em que a escultura afirma a sua autonomia como objecto. Era esta, aliás, a tal esfera privada de Rodin: à transparência da escultura enquanto linguagem, característica da esfera pública, opõe-se a opacidade, a materialidade. Ora, essa característica da esfera privada de Rodin, a opacidade, a materialidade, encontrámo-la, também, em Jeannette V (1916)

Matisse, Jeannette V, 1916, Art Gallery of Ontario, Toronto

de Matisse, uma marca para Picasso, quando a descobre em '30. Por isso é que Matisse, escrevendo sobre Saint John the Baptist de Rodin, de que The Walking Man terá sido um estudo, sublinha que «(...) eu só podia visar a arquitectura geral, trocando os detalhes explanatórios por uma síntese viva e sugestiva». E, aqui, Matisse não terá eventualmente compreendido como Rodin, precisamente através desses detalhes e fragmentos, que abriam para diferentes grupos e orientações no espaço, se antecipou ao cubismo de Picasso.

Se, com

Matisse, The Back (I), c. 1909, (II) e (III), 1916, (IV), 1931, MoMA, NYC, 1

The Back, Matisse se opõe ao ilusionismo e ao efeito "decorativo", que a sua pintura, por vezes, deixa transparecer, com

Matisse, La Serpentine, 1909, MoMA, NYC

La Serpentine (1909) insiste na escultura como objecto que pode ser percepcionado de todos os pontos de vista e que, por isso mesmo, não pode ter um significado pleno, acabado, para o espectador. Como estamos longe da famosa Guitarra (1912) de Picasso. Daí, Matisse raramente escolher um plano frontal: como nas Jeannette ou em

Matisse, Reclining Nude I (Aurora), 1907, Baltimore Museum of Art

Reclining Nude I (Aurora) (1907), cujos arabescos, consequência do ponto de vista, evidenciam a escultura enquanto objecto.

Bibliografia: Art since 1900.
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Nota: Dado que, nestes verbetes, estou a esboçar as grandes problemáticas das artes visuais desde oitocentos até à actualidade, problemáticas essas que se inserem num determinado contexto histórico, o verbete 1900. Dada, entretanto retirado, será publicado, outra vez, na devida altura.