12.6.11

"Húmus" de Raul Brandão ou o contacto do mistério

A expressão «o contacto do mistério» não é minha – é do próprio Raul Brandão. (1) Mas, o que significa esta expressão?

Dentre as muitas palavras obsessivas em "Húmus", uma delas é jogo – e, associada a ela, um exclamativo que implica estar em jogo, jogar. Jogar o quê? Que jogo? Um jogo entre vida e morte. E, consequência deste jogo entre vida e morte, surgem não personagens mas figuras – a figura das figuras, como escreve Brandão; e surge um espaço: a vila.

É curioso como as figuras de "Húmus" evocam o romantismo de Friedrich e o expressionismo alemão (caso do movimento Die Brücke). Mas, também um precursor do expressionismo alemão: Munch. Ou o movimento Secessão Vienense (algum Klimt, a deformação e a animalidade em Schiele e Kokoschka, por exemplo). Também é curioso como a vila implica a pintura de de Chirico, a scuola metafisica. Note-se que todos estes movimentos das artes visuais são anteriores à publicação de "Húmus": 1917. Se Raul Brandão conhecia algumas destas obras ou não, desconheço.

Por outro lado, "Húmus" implica imediatamente três nomes: Poe, Baudelaire, Nietzsche. Três nomes essenciais do final de oitocentos. De facto, há em "Húmus" o crime, as flores do mal, a vida. Todavia, se Raul Brandão conhecia estes autores ou não, desconheço também.

Húmus significa fertilidade. De que fertilidade se trata nesta peregrinação interior, neste questionar tão radical que só deixa à vista a árvore (a ligação da terra ao céu) e a pedra (estrutura, suporte)? A resposta é esta: a fertilidade do instinto, a fertilidade da vida enquanto instinto. E, aqui, Brandão toca ao de leve no pensamento de Nietzsche. Mas, tendo ou não lido Nietzsche, vai mais longe, continuando a acompanhá-lo: se a fertilidade é a vida enquanto instinto, então é necessária uma nova tábua de valores. Como em Nietzsche, o pano de fundo é a morte de Deus. Todavia, para Brandão, a ausência de fé, subjacente à morte de Deus, implica um cortejo de mortos (a figura das figuras, como escreve), semelhante ao apocalipse – uma espécie de apocalipse profano, onde o homem (enquanto bicho) se encontra com o homem (também enquanto bicho) no mais profundo da sua dor. Onde o homem, que não pode ser Deus, se assume enquanto figura dos mortos. Por isso, qualquer redenção é, aqui, impossível. Resta a dor ou o fel como o único ponto de união entre o homem e os mortos.

Ora, se dor ou fel são o único ponto de união entre homem e mortos, o instinto sobrepõe-se à lei. Daí o crime, enquanto manifestação radical da humanidade, do ser-se humano. E, ao vazio das arcadas de Poe, ou ao vazio das vilas (?) de de Chirico, contrapõe Brandão o vazio da vila – nuns e noutro, é de um vazio de fantasmas que se trata. Como em Baudelaire - onde vemos desfilar um cortejo de miseráveis, capazes dos mais horrendos crimes. De facto, em Baudelaire e Brandão as flores do mal estão omnipresentes.

Poética do pessimismo, a de Brandão, resta-lhe como saída o abismo. O abismo donde saem os mortos ao encontro do homem. Mas, também, o abismo em que a árvore tenta alcançar o céu, ou em que a pedra é constante metamorfose sedimentada. O abismo de um instante – que, no limite, é o húmus, o contacto do mistério. Ou seja: a vida. A vida como a vida dos bichos. A vida enquanto instinto. A vida enquanto grito. Como na célebre pintura de Munch.

(1) Raul Brandão, Húmus, Círculo de Leitores, Lisboa, 1986, p. 133.

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