Florbela e o não querer
«Perdi os meus fantásticos castelos / Como névoa distante que se esfuma... / Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: / Quebrei as minhas lanças uma a uma! // Perdi minhas galeras entre os gelos / Que se afundaram sobre um mar de bruma... / - Tantos escolhos! Quem podia vê-los? - / Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! // Perdi a minha taça, o meu anel, / A minha cota de aço, o meu corcel, / Perdi meu elmo de oiro e pedrarias... // Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... / Sobre o meu coração pesam montanhas... / Olho assombrada as minhas mãos vazias...». (*)
Este é o IX dos X sonetos que têm por título este verso de Camões: «É um não querer mais que bem querer» - e que pertencem a Charneca em flor, publicado em 1930, pouco depois da morte da autora. E, para mim, talvez este seja um dos mais belos poemas de Flor Bella, seu nome de baptismo. Aqui, como em mais um punhado de poemas notáveis, está um enunciado ou, até, um projecto de vida: o não querer.
Agustina Bessa Luís, em A vida e a obra de Florbela Espanca (col. A obra e o homem, ed. Arcádia, Lisboa, 1979), defende a ideia do não querer como projecto de vida. Um não querer como o do pai - que só a perfilha depois de morta. Um não querer como o dos três casamentos. Um não querer (que, afinal, é um querer carregado de ambiguidades) na relação com o irmão. Um não querer que é a sua morte - suicídio ou overdose. E por aí fora.
Não nego esta abordagem biográfica, que os poemas e os contos sustentam. Todavia, o que me interessa em Florbela é a suspensão do gesto - não a sua anulação. Um não querer em suspenso. Em que a suspensão do gesto é o próprio poema, melhor, é o assombro perante o poema, perante as mãos vazias que o poema deixa.
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(*) Florbela Espanca, Sonetos, edição integral, 11ª ed., Livraria Tavares Martins, Porto, 1965, p. 145.
Etiquetas: Florbela Espanca, literatura portuguesa





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