24.9.11

The Second Coming de Yeats, o pesadelo da história e a crítica das artes visuais

«Turning and turning in the widening gyre / The falcon cannot hear the falconer; / Things fall apart; the centre cannot hold; / Mere anarchy is loosed upon the world, / The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere / The ceremony of innocence is drowned; / The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity.» (The Collected Poems of W. B. Yeats, Scribner Paperback Poetry, New York, 2ª ed., 1996, p. 187).

Por incrível que pareça, este poema notável não foi traduzido na edição da Assírio & Alvim nem na da Relógio d'Água. O título do poema é The Second Coming - e pertence, como Easter, 1916, de que falei atrás, ao livro Michael Robartes and the Dancer, de 1921.

«Surely some revelation is at hand; / Surely the Second Coming is at hand.». Que «Second Coming»? O que quer dizer «Second Coming»? Talvez isto: «(...) but now I know / That twenty centuries of stony sleep / Were vexed to nightmare by a rocking cradle (...)». Ou seja: «Second Coming» é um pesadelo. Mais: «Second Coming» implica vinte séculos de história, « a stony sleep». No limite, «Second Coming» é o pesadelo da história. Melhor: é a história feita pesadelo (também Walter Benjamin se há manter sempre dentro desta perspectiva).

Quando a história se faz pesadelo é preciso uma ruptura, nem que seja uma ruptura violenta, num momento histórico violento - caso de 1914-18, por exemplo, de que, aliás, Yeats fala. Foi o que fez Picasso, Matisse, Braque. Mas, para trás, outras rupturas foram feitas. Courbet em relação ao romantismo (e ao orientalismo - que, com o cubismo, passa a ser um africanismo, caso das máscaras). Manet. Impressionistas e pós-impressionistas. Cézanne (a abertura à abstracção), Van Gogh (a abertura à expressão), Gauguin (a abertura à cor).

Todavia, quando «o falcão não consegue ouvir o falcoeiro», perdido entre "convicção" e "intensidade apaixonada", resta uma tarefa, como o mostrou Aby Warburg. O título dessa tarefa é Mnemosyne (este conceito é contemporâneo deste livro de Yeats): um encontro das imagens (e não uma sequência cronológica, historicista, isto é, a história feita pesadelo), numa lógica de "afinidades electivas", como escreve Goethe. Não será esta, afinal, «The Second Coming», que Nietzsche foi o primeiro a anunciar quando fala da vida?

Etiquetas: , , , ,