O ciclo da pedra
Sabe-se que uma pedra caminha sempre ao encontro da pedra. Muros, estradões indicam-no. Ruelas, becos, também. E caminha ao encontro da pedra por entre água, terra, vento. Uma que outra vez, cinzas. Caminho de solidão, que leva a parte nenhuma, uma pedra acaba sempre por se encontrar na sua singularidade, no seu lado fragmentário. – «Esta é uma pedra.», dizemos. E nunca: - «Esta é a pedra». Todavia, a singularidade duma pedra não é coisa evidente. Os sulcos que a habitam, por exemplo. Dependendo da luz, uma pedra é sempre uma outra pedra. Os seus sulcos são sempre outros sulcos – outros desenhos. Que, por vezes, água, terra acentuam, armadilhando a sua singularidade. Daí a necessidade de régua, nível. Porque uma pedra é sempre um desequilíbrio quase fatal – senão, mesmo fatal. Por isso, os pedreiros acolhem-na com ternura. A uma pedra segue-se uma mais pequena ou uma ainda maior – e por aí fora. Como quem tece um bordado – que o musgo acentua. Construído o equilíbrio, pode-se habitar a pedra. Encostar o ombro. Fincar os pés. Só que esse equilíbrio é precário. Vento, água, terra desconstroem esse equilíbrio. Depois, encostar o ombro dói. Fincar os pés escorrega. Como se essa pedra estivesse contaminada pela morte, pela rasura da morte. Os sulcos alargam-se, tornando-se cada vez mais irregulares. Construindo pequenas esculturas, pequenas manchas de cor. No escavado desta pedra, um cintilar mínimo rasga o olhar. Fere as mãos. As que assinaram aquela pedra, por exemplo. As que a marcaram por algum tempo, apenas. Como se esta pedra pudesse ser também mapa, carta. Como nos montes – donde se regressa seguindo marcos, esteios. Todavia, aí, uma pedra apresenta-se, aparentemente, no mais absoluto de si mesma. Como as árvores, a terra, o vento – ou a água. Por isso, o lenhador é uma espécie de pedreiro. No fulgor do corte, o veio da árvore – da pedra. Daí a sua incandescência, que a água apazigua. Daí a impossibilidade de olhar a pedra – ou o sol. Ou a água, o vento. De facto, sol, água, vento são os pedreiros mais profundos, aqueles que nos trazem, aqui, esta pedra. Pedra de acidente, é a essência que a envolve como um novelo de linho. Daí, o diálogo – antiquíssimo, aliás – entre pedra e linho. Daí, a frescura do linho, a sua marca matricial, que pedra e água acentuam. E que os corpos habitam, na impossibilidade de habitarem a água, a pedra. E que vai ganhando cama, como a pedra. De facto, também as pedras ganham cama, quero dizer, envelhecem secretamente, no mais íntimo de si. Passagem do tempo – que o mesmo é dizer dos passos que as serram. Como a serra do lenhador. E no regresso dos caminhos que levam a lado nenhum, eis que uma pedra surge, esta pedra, anunciando que por detrás dela, no abismo do oculto, a pedra é substantiva, essencial – matriz da vida, que a testemunha para sempre. Herança primordial.
Etiquetas: Rumor de sulcos





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