Sobre (as) pedras
As fendas e fissuras que atravessam as pedras são o punctum (Barthes) destas fotografias de Rui Morão (quatro fotografias da série As pedras pelas ruas, onde o autor assinala o dia e a hora de cada fotografia), são aquilo que estrutura o seu campo perceptivo. Ora, fendas e fissuras implicam o tempo. E, implicando-o, implicam também a morte.
Acontece, porém, que a pedra, na metafísica ocidental, de Aristóteles a Heidegger, passando por Nietzsche, não pertence à classe dos seres vivos, não pertence à vida. E não sendo vida, é alheia ao tempo e à morte.
Mas, sendo a pedra alheia à morte, não o é quem anda sobre elas: o homem. Que tem, no dizer de Heidegger, uma historicidade - um conceito quase sinónimo da célebre asserção de Ortega y Gasset: o homem e as suas circunstâncias.
É de notar que a historicidade do homem, na senda de Nietzsche e de Heidegger, é consequência de uma luta primordial. Para o primeiro, entre o Uno primordial e a Aparência. Para o segundo, entre Terra e Mundo. Para um e outro, entre oclusão e eclosão.
De facto, estas pedras parecem des-velar o oculto, a oclusão. Parecem ser uma eclosão - o aberto. E, sendo-o, abrem a um Dasein, a um ser-aí-no-mundo - um ser-aí-no-mundo diante da morte: o homem. Isto para Heidegger. Para Nietzsche, a eclosão implica a vida, enquanto conceito metafísico.
No expressionismo abstracto, na action painting de Pollock, o all-over, o dripping eram marcas desse ser-aí-no-mundo diante da morte, eram marcas da vida.
«When I am in my painting, I'm not aware of what I'm doing.», escreveu Pollock em 1956, aparentemente evocando uma experiência dos anos 1940: a sandpainting dos índios.
É disto que tratam, então, estas fotografias? Sim e não. Como na action painting de Pollock, estas pedras indiciam, pela erosão, o tempo e a morte - são uma metáfora do tempo e da morte. Mas, por outro lado, indiciam uma ausência - a ausência de quem anda sobre elas. E, questionando essa ausência, são uma alegoria. Uma alegoria da finitude humana - e do que de trágico ela comporta, do sentimento trágico da vida, nas palavras de Unamuno.
Etiquetas: fotografia, Rui Morão










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