23.11.11

Torga ou um outro livro de Job





Há na poesia de Torga algo de Sísifo. A saber: a luta enquanto luta - e não para vencer ou perder, como os seus poemas repetidamente sublinham; ou o assumir-se na radicalidade humana - na tradição presencista, em particular na poesia de Régio. Como neste Comunicado, datado de 1961, e incluído em Diário IX, 1964:

«Na frente ocidental nada de novo. / O povo / Continua a resistir. / Sem ninguém que lhe valha, / Geme e trabalha / Até cair.» (Miguel Torga, Antologia poética, Coimbra, s/d [1981], p. 358).

Um continuar a resistir que evoca as serranias (caso do Marão, do Marão matricial). Donde, um continuar a resistir telúrico. Mas, um continuar a resistir cívico, também. E desencantado. Profundamente desencantado.

Ora, este desencanto tem em Torga uma dimensão moral. A que, por um lado, deriva da renúncia a qualquer divindade - daí, a sua poesia ser sempre um outro livro de Job. A que, por outro lado, deriva da exaltação da natureza - uma natureza para além do bem e do mal, uma natureza que é terra-mãe. E, por fim, uma dimensão moral que (quase) anula qualquer autobiografia - apesar de, a partir dos Diários, cada poema ter a indicação do lugar e da data. Uma dimensão moral que enaltece o paganismo, o paganismo greco-latino.

De facto, é em torno deste paganismo greco-latino que a poesia de Torga se desenvolve. E, além disso, é por causa desse paganismo greco-latino que qualquer alusão autobiográfica se suspende - como nos numerosos poemas sobre o Natal. Sempre um Natal de terra e argila. A mesma terra e argila que edifica a poesia de Torga - e que o Poeta (como ele escreve, com capitular) transcende.

É, pois, peculiar o percurso poético de Torga dentro do movimento da Presença (Régio, Gaspar Simões, Casais Monteiro). É de uma constante afirmação da dimensão moral que irrompe um território metafísico (que implica uma poética da imanência). Por isso, ao contrário de Camus, Torga não pode afirmar que se deve pensar que Sísifo é feliz. Sísifo é a luta - mesmo na tragédia da queda...

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