Camilo Pessanha ou o espelho inútil
«Imagens que passais pela retina / Dos meus olhos, porque não vos fixais? (...) // (...) - Porque ides sem mim, não me levais? // Sem vós o que são os meus olhos abertos? / - O espelho inútil, meus olhos pagãos! (...)».
Há, aqui, neste excerto de um poema de Camilo Pessanha (Clepsidra e outros poemas, org. João de Castro Osório, col. Poesia, ed. Ática, Lisboa, 1969, p. 207), * matéria para meditar. Em primeiro lugar, um tema recorrente na sua poesia: as questões em torno do olhar. Depois, a impossibilidade da fixação das imagens, o que leva a um outro tema recorrente na sua poesia: os olhos abertos e mortos - os olhos enquanto espelhos inúteis.
Michael Fried, em The Moment of Caravaggio (Princeton University Press, New Jersey, 2010), usa a respeito da obra do pintor dois conceitos que traduzem dois "momentos" no acto de pintar: «immersion» e «specularity». No primeiro "momento" (immersive) não há uma distinção entre a pintura e o pintor. Já no segundo "momento" (specular), que parte evidentemente do primeiro, há uma mera relação visual ou óptica com a imagem ou com a imagem-artefacto. Por outras palavras: «The contrast between the two "moments" (...) is between the artist's being "in" the painting (or at least "continuous" with it in the ongoing process by which the painted image was laid down on the canvas) and finding himself "outside" the painting, of discovering that he has become not just detached but distanced from it, in a relationship of mutual facing (also mutual freezing) that first establishes the painted image as an image and with it the painting as a picture, as fundamentally adressed to a viewer - in the first instance, to the artist himself (...).» (p. 39). E, na linha destes "momentos", Fried convoca o canto 16 de Gerusalemme liberata (1581) de Torquato Tasso e Rinaldo e Armida (1601-2) de Annibale Carracci, que representa pictoricamente aquele canto do poema épico. Aqui, Rinaldo olha-se no olhar de Armida que, no espelho que ele segura, se olha e ao olhar do amado - como se Rinaldo, imergindo ("momento" immersive) no olhar da mulher amada, através do espelho recuperasse o seu olhar e o de Armida ("momento" specular). Além disso, a cena é observada por dois cavaleiros - já para não falar do espectador (o primeiro dos quais é o pintor).
Talvez o início deste poema de Pessanha (1867-1926), Branco e vermelho, se inscreva na análise feita por Fried sobre Caravaggio:
«A dor, forte e imprevista, / Ferindo-me, imprevista, / De branca e de imprevista / Foi um deslumbramento, / Que me endoidou a vista, / Fez-me perder a vista, / Fez-me fugir a vista, / Num doce esvaímento» (p. 253).
E voltamos ao tema do «espelho inútil»: endoidar a vista, fazer perder a vista, fazer fugir a vista. Um «espelho inútil» «num doce esvaímento», num "momento" immersive. Todavia, a causa desse «doce esvaímento» é a dor - a dor «forte e imprevista», a dor «branca e imprevista», sinónimo de «deslumbramento», de originário encontro entre o eu e o real.
«Como um deserto imenso, / Branco deserto imenso, / Resplandecente e imenso, / Fez-se em redor de mim. / Todo o meu ser suspenso, / Não sinto já, não penso, / Pairo na luz, suspenso... / Que delícia sem fim!» (id.).
O processo de distanciação que o real implica, implica também, em Pessanha, o recolhimento.
«Eu vi a luz em um país perdido. / A minha alma é lânguida e inerme. / Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! / No chão sumir-se, como faz um verme...» (p. 159).
Inscrição é o título deste poema. E segue o mesmo "momento" de Branco e vermelho: o recolhimento. Entretanto, surgem estes dois versos: «Miragens do nada, / Dizei-me quem sou...» (Roteiro da vida, I, p. 226). Como quem diz: reflexos ("momento" specular) do «nada», identifiquem-me - identifiquem-me lógica, gnoseológica, ontologicamente como nada.
Este «nada» é o limite do «esvaímento»: «Porque o melhor, enfim, / É não ouvir nem ver... / Passarem sobre mim / E nada me doer! // - Sorrindo interiormente, / Co'as pálpebras cerradas, / Às águas da torrente / Já tão longe passadas. -» (p. 249).
Ao longo da poesia de Pessanha são inúmeros os poemas com o "momento" dentro, de recolhimento. Como acontece nos poemas sobre a mulher amada. «Morre-me a boca por beijar a tua» (p. 189); «Oh vem! Meus olhos querem desposar-te, / Reflectir-te virgem a serena imagem» (p. 191); «(...) Teus olhos, que um momento / Perscrutaram nos meus, como vão tristes!» (p. 193); «Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, / Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo» (p. 211). Estes poemas vão, aliás, de encontro a Rinaldo e Armida de Carracci.
«E a vista sonda, reconstrui, compara. / Tantos naufrágios, perdições, destróços! / - Ó fúlgida visão, linda mentira!» (p. 198). Por isso, só resta o «esvaímento». Como aqui:
«Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas, / - Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise, / Represados clarões, cromáticas vesânias -, / No limbo onde esperais a luz que vos baptise, // As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.» (p. 257).
Este «esvaímento», que aparenta uma dissolução do eu poético, é, em Pessanha, a possibilidade última do poema - o "momento" specular. Que, como as cores virtuais, jaz subterrâneo, imerso. Mas que é, também, «fúlgida visão» - e «linda mentira». Quer dizer: relâmpago e reconstrução. Ou, melhor: imaginação, conhecimento, linguagem...
_______________
* Uso esta edição em vez de uma mais recente, com diferente grafia e organização dos poemas. Cf. Camilo Pessanha, Clepsydra, ed. crítica de Paulo Franchetti, Relógio d'Água, Lisboa, 1995.
Etiquetas: Camilo Pessanha, literatura portuguesa





<< Home