Gomes Leal: uma poética do mistério
«Estética do mistério» é o título do prefácio de Gomes Leal a um livro de poesia de Guilherme de Santa Rita, publicado em 1897. E talvez seja dos textos mais importantes de Gomes Leal sobre a sua própria obra. Muito mais do que a nota da primeira edição de Claridades do sul (1875), intitulada Algumas palavras - que foi, na segunda edição, acrescentada com um longo parágrafo. É nesta edição, precisamente, que Gomes Leal escreve: «Claridades do Sul é a idealização da poesia do Sol, das Árvores, das Flores, da Música, das Paisagens, do Amor, da Vida, e do Sonho: - enfim de toda a idiossincrasia destas regiões suaves e musicais do Ocidente (...)» (cf. o primeiro dos três tomos de Claridades do sul, edição de Petrus, p. 89, cuja grafia actualizei). Sublinhe-se, desde já, que a questão da musicalidade é central na poesia de Gomes Leal. Mas, em «Estética do mistério» (cf. Gomes Leal, Antologia poética. Entre a diferença e o excesso, org. Cecíla Barreira, col. Ilhas, ed. Rolim, Lisboa, s/d, pp. 113 sqs.) vai mais longe: «Em toda a parte me sinto impelido a sondar o Desconhecido, a levantar uma ponta do véu do Ignorado, e das coisas inesperadamente insólitas, saturadas de prestígio. Aquilo que os homens, em ciência ou em filosofia, podem repelir, o artista pode acolher e modelar, com um alvo superior de Estética pura.» (p. 117) - eis os «sete selos mágicos» (id.), a «maravilhosa incógnita» (p. 122). Aliada à questão da musicalidade, a questão do mistério é estruturante na poesia de Gomes Leal.
Em O visionário ou som e cor (cf. Vitorino Nemésio, Destino de Gomes Leal. Seguido de poesias escolhidas (com dispersos desconhecidos), Livraria Bertrand, Lisboa, 2ª ed., s/d [1953], pp. 115-6) pode-se ler: «Procuro em toda a parte a música das cores / - E nas tintas da flor achei a Melodia.»; «Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira». E percebemos que Gomes Leal encontra Baudelaire - o Baudelaire do poema Correspondances de Les fleurs du mal: «Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.». E, encontrando Baudelaire, encontra Hoffmann. E, encontrando Baudelaire, encontra Poe. Aliás, o poema em questão termina assim: «Uma flor rubra e negra, em forma de uma estrela, / - Como uma sinfonia obscura de terror.» (p. 116). Por um lado, o encontro entre Gomes Leal e Baudelaire dá-se, ainda, em torno da cidade moderna - e do seu cortejo de personagens. Por outro, o encontro entre Gomes Leal e Hoffmann e Poe dá-se em torno dessa tal «sinfonia obscura de terror» - que os seus poemas com palácios, castelos, cemitérios testemunham.
No ensaio Destino de Gomes Leal, Nemésio considera O visionário ou som e cor e Nevrose nocturna dois grandes poemas de Claridades do sul. Com toda a razão. «- Bela! dizia eu, como um navio à vela, / Para um país polar, por um silêncio amigo. / - Bela! como uma estátua e gélida como ela. / - Bela! dizia eu, como um sepulcro antigo. // Bela! dizia eu, ágil como um jaguar, / Assim me inspire o Fado e Satanás me deixe! / Bela! dizia eu, fria como o luar / Sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe. // Bela! dizia eu, como uma mesa lauta // Para um festim pagão: a Forma, o Som, e a Cor. / Bela! dizia eu, como nocturna flauta, / Desfiando, no mar, a ladainha - Dor. // Bela! dizia eu, fria como o marfim. / Bela como um calado e longo cemitério, / Em que se vê vagar, como no seu jardim, / O coveiro, ao luar, vegetativo e sério. // (...) // Bela! como um espelho esférico, polido, / Aonde colos nus luzem palidamente. / Bela! como o sentir a seda dum vestido / Arrastar, como arrasta a cauda da serpente. // (...)» (pp. 121-2). E talvez tenhámos aqui, ao longo deste poema, uma poética - a poética de Gomes Leal: uma poética do mistério. O poema termina assim: «Por isso, eu quero ver como o seu belo rosto / Se crispa, à sensação estranha do meu braço: / E quero, na tenaz sinistra do Desgosto, / Fazê-la ressaltar como uma mola de aço!». Neste poema está quase tudo. As «correspondências» de Hoffmann e Baudelaire. A mulher - a que se há-de ler em A mulher de luto (1902). O fado - o destino de Camões (A fome de Camões - 1880), de Bocage (Mataram-te, Bocage! - 1906), do próprio Gomes Leal. E Satanás - o que se há-de ler na primeira versão de O antiCristo (1884). De fora ficam alguns poemas da conversão religiosa, caso da segunda versão de O antiCristo (1908), a que acrescentou Teses selvagens (1908), Serenadas de Hilário no céu (s/d, 1896), História de Jesus (1883) e Senhora da melancolia (1910).
Qual o papel da mulher na poética de Gomes Leal? O poema Nevrose nocturna dá-nos bastantes pistas. Ao contrário do que escreve Cecília Barreira na antologia atrás referida - «O local de eleição para o derramamento do sangue da vítima - uma mulher bela, quase sempre em situação de núpcias (...) [a]ssinala-se (...) [n]o leito, por excelência o altar consagrado a uma expiação ou a um sacrifício divino» (p. 15) - o sangue feminino, na poética de Gomes Leal, nada tem a ver com expiação ou sacrifício, mas, sim, com vida, com orgasmo, é sinónimo de vida, de orgasmo. Basta ler a última estrofe de Nevrose nocturna: «(...) eu quero ver como o seu belo rosto / Se crispa, à sensação estranha do meu braço: / E quero, na tenaz sinistra do Desgosto, / Fazê-la ressaltar como uma mola de aço!». Um orgasmo que implica a «tenaz sinistra do Desgosto»? Para quem? Para o poeta, evidentemente. Porque a mulher, na poética de Gomes Leal, a começar pela irmã e pela mãe, é mais do que o mistério - é o im-possível: «E às desoladas mães e às amantes transidas, / Goivos fatais da histeria, almas que uivam de tédio, / Trago um óleo com que unjo as pálpebras doridas / Dos prantos sem remédio.» (À memória de minha irmã, p. 210). Como estamos longe do baudelaireano «infuser mon venin», a sífilis, no acto sexual. De facto, para Gomes Leal, no poema Nevrose nocturna e não só, a mulher é fria e animalesca - como se fosse uma feiticeira. Mas, apesar de tudo: «Bela! como o sentir as espirais do gozo / Num fundo sensual de sombras perfumadas.» (p.121). Atenção, todavia: não se confunda a mulher-irmã nem a mulher-mãe («almas que uivam de tédio») com a mulher-amante, a que propicia «as espirais do gozo». A mulher-amante que é lírio e rosa noutros poemas. «Onde está, ó Teodora, a asa do meu desejo?...» (Carta à mulher de luto, p. 213).
Contudo, a asa do seu desejo foi sempre ferida de morte (por Teodora, Ângela, Celeste e outras). O mistério ou o im-possível atravessaram-na sempre - e para sempre (leia-se o poema A minha noite de noivado). Presença fantasmática da mãe e/ou da irmã? Talvez. Falstaff moderno di-lo com ironia: «Quando eu morrer, ninguém lerá no crânio / Se eu fui mouro ou judeu; / Se prezava o cognac ou o madeira; / Que sofrer foi o meu. // Não saberão dizer se foi a pipa / O hotel em que vivi, / Ou se fazia sol ou aguaceiros / No dia em que nasci. // Mas que ideias tão negras!... O que importa / Roa a terra mais um! / Depois da morte, o nada. - Ó minhas lágrimas / Não me estragueis o rum!» (pp. 117-8). E no final de Carta à mulher de luto o tom é de trágicomédia: «(...) Eu sou Simão o Mago, o Doido, o Nigromante, / Que quis subir ao Céu e rolou no tablado!» (p. 214). Dir-se-á: foi este o destino, o «Fado» de Gomes Leal. De facto, as biografias indicam-no. Mas que foi, o mais das vezes, um destino rasgado com golpes de génio no uso da palavra poética e na construção do poema, lá isso foi. Lê-se Gomes Leal e recordamos um que outro poema de Nemésio. Ou de Sena. Ou de O'Neill. Sem esquecer o poema que Pessoa lhe dirigiu: «Sagra, sinistro, a alguns o astro baço. / Seus três anéis irreversíveis são / A desgraça, a tristeza, a solidão. / Oito luas fatais fitam no espaço. (...)» (Fernando Pessoa, Obra poética, org. Maria Aliete Galhoz, col. Biblioteca luso-brasileira, Série portuguesa, Companhia José Aguilar ed., Rio de Janeiro, 1969, p. 151). Esta era a carta astrológica de Gomes Leal traçada por Pessoa. «Inúteis oito luas da loucura / Quando a cintura tríplice denota / Solidão e desgraça e amargura!».
Etiquetas: Gomes Leal, literatura portuguesa





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