O primeiro anti-Cristo de Gomes Leal: um teatro de bonifrates
A ideia não era nova nos finais do século XIX: combater, através da ciência, o dogmatismo da igreja. Cá, Guerra Junqueiro dá conta disso em A velhice do padre eterno (1885) - onde, na nota que serve de posfácio à edição, se refere a mais dois livros complementares: Morte do padre eterno e Prometeu libertado, projecto que nunca levou a cabo. E explica o plano assim: «E depois de morto D. João [cf. A morte de D. João] e morto Jeová, resta-me ressuscitar Jesus e desagrilhoar Prometeu. (...) A liberdade de Prometeu significa o desaparecimento de todas as tiranias, e a ressurreição de Jesus [cf., ainda, o poema A semana santa, in A velhice do padre eterno, Liv. Chardron, de Lélo & Irmão, L.da, Lisboa, s/d, pp. 69-98], a morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana, e o outro a aspiração imortal para uma justiça absoluta.» (id., pp. 262-4).
Quem não acreditava na «justiça absoluta» era Gomes Leal. Em Do naturalismo na poesia, nota final a O anti-Cristo. I parte - Cristo é o mal [ed. José Carlos Seabra Pereira, col. Obras clássicas da literatura portuguesa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000, pp. 429-453], declara-o repetidamente: «A moral é pois filha da necessidade; aperfeiçoa-se com a Ciência e com a Razão, que é quem determina experimentalmente a relação do bem e do mal. Variando a necessidade, deve variar, fatalmente, a moral.» (id., p. 449).
Em Destino de Gomes Leal (ibid.), Vitorino Nemésio diz algo fundamental para a compreensão do poeta. Por um lado, as suas leituras de Comte (a lei dos três estádios da humanidade), Schopenhauer (o conceito de vontade), Renan, Hartmann (o conceito de inconsciente), a quem dedica o poema, etc. são em segunda ou terceira mão - ou mais, ainda. Por outro lado, na produção poética de Gomes Leal, a par de muita banalidade parnasiana e/ou romântica, há rasgos geniais na forma como constrói o poema, verdadeiro prelúdio do modernismo. Que é o que sucede com o primeiro O anti-Cristo, o de 1884-86.
O anti-Cristo de 1884-86 parece teatro de bonifrates - Gomes Leal quer que seja um poema entre o épico e o trágico (mais o trágico, até: «(...) todo um drama em si - trágico e teatral!» (p. 129)). E é, desde logo, um teatro de bonifrates por esta razão: é conduzido de fio a pavio pelo positivismo, que a personagem Ciência congrega. E tem por personagem principal o Anti-Cristo - capaz, mesmo, de ter pena da Virgem, porque esta lhe lembra Celeste... O pano de fundo do poema é o Oriente (na tradição romântica).
Não cabe, aqui, analisar detalhadamente o poema. Sublinhe-se apenas isto: O anti-Cristo de 1884-86 é um manifesto contra a igreja. E, sendo um manifesto contra a igreja, implica o desenho de uma nova tábua de valores. Como Húmus de Raul Brandão, por exemplo - o que não acontece com A morte de D. João nem com A velhice do padre eterno de Guerra Junqueiro. Todavia, a nova tábua de valores implica-se no positivismo: o homem «[é] apenas um ser mamífero e bimano: / um composto de sais, carbone, e de hidrogéneo.» (p.59). Além disso, a nova tábua de valores abre para a consciência humana (aliás, na última didascália do poema, Gomes Leal escreve: «(...) Todos os olhos se voltam para o ponto que ele [Cristo] fixa. § E, ao fundo, vêem uma sombra inexprimível, silenciosa, gigantesca, que há muito tempo os fita, amarga e enigmaticamente, na penumbra, e que é: - a visão ensanguentada da Consciência Humana.» (p. 425) - e termina, assim, o poema.
Em Do naturalismo na poesia, a tal nota final do poema, Gomes Leal refere que tentou «a epopeia naturalista» (p. 431) e não, como a poesia actual, «uma rútila deusa de ouro, cheia por dentro de algodão em rama» (p. 430). E acrescenta: «A poesia da Ciência é a poesia do futuro (...)» (p. 443). Não sem antes escrever: «Depois de se demolirem as religiões que fizeram o antigo deus à semelhança do homem, será necessário demolir um dia o homem à semelhança de Deus.» (p.437). E houve quem pensasse na «morte de Deus» de Nietzsche (Cecília Barreira, ibid.; Seabra Pereira, ibid.) - e, até, na «morte do homem» dos estruturalistas, em particular Foucault (Seabra Pereira, ibid.).
Sejamos claros: o conceito de ciência no primeiro Nietzsche, o de O nascimento da tragédia, ainda influenciado por Schopenhauer e Wagner, é, como o demonstrou Heidegger, sinónimo de metafísica. Como o prova, aliás, essa obra seminal (inacabada e fragmentária) de Nietzsche: A vontade de poder - onde o conceito axial é vida. No primeiro Nietzsche, o regresso ao pensamento pré-socrático, isto é, à tragédia, visava a harmonia de Sócrates, Eurípides - e, mais tarde, do cristianismo. Acontece, porém, que a tragédia grega era luta primordial (como entre o Uno original e a Aparência), poder do mais forte - no limite, anulação da harmonia, exaltação da vida. Daí Nietsche ter que, anunciando o fim da metafísica ocidental, criar uma nova tábua de valores, uma nova moral.
Nada disto acontece no primeiro O anti-Cristo de Gomes Leal. Colhido em Baudelaire («ao homem teu irmão, monstro, teu semelhante», diz o anti-Cristo (p. 190)) e Goethe (Fausto), o que interressa a Gomes Leal é isto: «o naturalismo artístico, para ser coerente, tem de se aliar com o naturalismo científico, e fundar a moral positiva, necessária e humana.» (p. 453). E acrescenta: «A primeira [moral] era, ou é, a moral de deus. Seja. - O naturalismo terá de deslocá-la, com a moral do Homem.» (id.). Porque, afinal, como escreveu Proudhon, e como escreve Gomes Leal no sub-título do poema, «Cristo é o Mal». Portanto, o naturalismo, ao deslocar a moral de Deus para a moral do homem, encontra um valor: será o bem? Como estamos longe de Nietzsche... Mas como estamos perto de A canalha (1873), de O tributo de sangue (1873), de A fome de Camões (1880), de Mataram-te, Bocage (1906). Ou, ainda, como escreve Nemésio (ibid., p. 49), do poema Os deuses mortos de Claridades do sul (1875): «Deixai-os descansar! - Luzentes mariposas, / Cuidado! não piqueis o coração das rosas!».
Porque, afinal, «[t]u não eras assim. Tens lido Baudelaire, / Schopenhauer talvez. - Desprezas a Mulher.» (p. 174). Eis, eventualmente, uma resposta: «Que horror sempre sentir!... Que horror sempre pensar!...» (p. 85). E lá vai Gomes Leal ao encontro de Pessoa, do Pessoa ortónimo e do heterónimo. Ou, quem sabe, esta: «Os marinheiros que restam acendem barricas de alcatrão para desinfectar o barco das exalações epidémicas. Todo o navio agora iluminado, no meio da noite tenebrosa, cruza o mármore negro e líquido do mar, como um peixe excepcional, ou um monstro cor de fogo, à flor das águas, pelo silêncio opaco da noite.» (p. 164). E lá vai Gomes Leal ao encontro do surrealismo. Tenha lido ou não Baudelaire e Schopenhauer em primeira mão...
Etiquetas: Gomes Leal, Guerra Junqueiro, literatura portuguesa





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