Cesário Verde e a modernidade
A cidade, em Cesário, ao contrário do
que acontece em Junqueiro e Gomes Leal (que foram ao encontro de Baudelaire,
como Cesário, aliás, também o foi: «Metálica visão que Charles Baudelaire /
Sonhou e pressentiu nos seus delírios mornos») não chega a ser o mal. Noite fechada (pp. 78 sqq.) e O sentimento dum ocidental (pp. 95 sqq.)
são poemas da e na cidade. No primeiro, há uma sensação difusa de mal-estar, de
tédio, spleen («Eu por mim tinha pena
dos marçanos») – que o passeio no campo não parece conseguir debelar:
«Lembras-te tu do sábado passado, / Do passeio que demos, devagar, / Entre um
saudoso gás amarelado / E as carícias leitosas do luar?» – é este o início do
poema que termina assim: «(…) Eu fui passar ao campo aquela noite (…) // E tu
que não serás somente minha, / Às carícias leitosas do luar, / Recolheste-te,
pálida e sozinha, / À gaiola do teu terceiro andar!». Por seu lado, em O sentimento dum ocidental, dedicado a
Guerra Junqueiro, o tom é mais vibrante, mais dilacerado: «Nas nossas ruas, ao
anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o
bulício, o Tejo, a maresia, / Despertam um desejo absurdo de sofrer.». E,
lendo-se este início da primeira das quatro secções do poema (Ave Marias, Noite fechada, Ao gás, Horas mortas), lembramo-nos de Pessoa – melhor,
de Álvaro de Campos, que vai, ainda, ser antecipado noutros poemas. Todavia, em
O sentimento dum ocidental há mais
antecipações de Pessoa. Assim, na segunda secção: «Chora-me o coração que se
enche e que se abisma.»; «E eu, de luneta de uma lente só» (parece o retrato do
engenheiro naval formado por Glasgow); «E eu que medito um livro que exacerbe,
/ Quisera que o real e a análise mo dessem». Mas, não é só a antevisão de
Álvaro de Campos que perpassa por aqui. Também perpassa o arquitecto de Paris em
meados de oitocentos – Haussmann, o homem que rasgou avenidas a régua e
esquadro, até como forma de poder conter rebeliões e barricadas: «Na parte que
abateu no terramoto, / Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas». Ou
perpassa, também, Junqueiro e Gomes Leal: «E eu sonho o Cólera, imagino a
Febre». E o sinalizar o mal-estar de uma forma bem mais vincada do que em Noite fechada: «Triste cidade! Eu temo
que me avives / Uma paixão defunta! (…)»; «Vêm lágrimas de luz dos astros com
olheiras, / Enleva-me a quimera azul de transmigrar.»; «Se eu não morresse,
nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!».
Ora, este buscar e conseguir a perfeição das coisas, seja real ou fantasmático, já está naquele excerto, que referi atrás, acerca da antevisão de Álvaro de Campos: «E eu que medito um livro que exacerbe, / Quisera que o real e a análise mo dessem». Que livro é esse que exacerba? Melhor: como chegar a um livro que exacerbe? Como chegar a um livro que exacerbe na interligação do real com a análise? Por outras palavras: como chegar ao realismo de que O livro de Cesário Verde dá conta? De facto, o tema do realismo é sempre introduzido de modo subtil contra a «palidez romântica e lunar!» (p. 101).
É curioso que Gomes Leal, um outro
precursor do modernismo, tenha, em nota final a Claridades do sul (1875) e em Do
naturalismo na poesia, nota final a O
anti-cristo de 1884-86, mostrado distância em relação à pintura de Courbet
– porque, diz ele, o realismo é a estética do feio. Que o realismo, de que
Courbet foi o teórico nas artes visuais, transforma os enormes quadros da
pintura de género histórico em enormes quadros sobre as gentes rurais (terra
tenentes, caciques, camponeses), sobre a ruralidade (o que até podia captar o
interesse de Guerra Junqueiro), lá isso é verdade. E que a ruralidade estava
afastada dos interesses artísticos de Gomes Leal, também é verdade. E para
Cesário Verde? O que significa o campo para Cesário Verde?
O campo não é nem o bem (como em Junqueiro) nem o mal. Aliás, Cesário está pouco preocupado com esta dualidade dos valores. Uma que outra vez refere-se aos desprotegidos da cidade. Mas, com pena, com comiseração – seja o lumpen ou o velho professor de latim. Refere-se-lhes na intensidade da descrição. De facto, a intensidade da descrição, que se desdobra por diversos planos, que criam entre si várias intersecções, é uma das marcas indiscutíveis da poesia de Cesário - que o faz ser precursor do interseccionismo de Pessoa. Outra marca é a sua condição de flâneur. Se o flâneur, como escreve Baudelaire em Le peintre de la vie moderne, é a encarnação do spleen, do tédio, da melancolia mas, também, da solidão das e nas grandes cidades, do caminhar sozinho nas arcadas e nos boulevards, Cesário é, na poesia portuguesa de oitocentos, um caso único de flâneur. À Baudelaire. E, fundamentalmente, à Poe. Por isso, a constante errância do eu (sempre desesperado no uso da interjeição, do vocativo, da interpelação: e eu, e tu, e nós) é uma marca distintiva da sua poética.
Voltando ao papel do campo na obra de
Cesário Verde. Disse atrás que o campo não era o bem (como em Junqueiro) nem o
mal – e que essa dicotomia valorativa lhe era quase indiferente. Leia-se, por
exemplo, esse poema pretensamente autobiográfico, Nós (pp. 116 sqq.). Não há, aí, como noutro poema qualquer, tábua de
valores alguma. Como, sublinhe-se, não há na poética de Cesário qualquer
referência ao positivismo (como em Junqueiro ou Gomes Leal). Tudo se passa
conforme a natureza e as leis do mercado. Apesar de dizer: «E o campo, desde
então, segundo o que me lembro, / É todo o meu amor de todos estes anos!». E
esta asserção é uma ideia recorrente. O que quer isto dizer? Rendição
incondicional ao campo? Não. É, apenas, uma questão de fidelidade – como para
com a irmã e o irmão. Eventualmente, uma fidelidade à infância. Porque ele,
Cesário, «pinta quadros por letras, por sinais» (p. 129), «[e] apuro-me em
lançar originais e exactos, / Os meus alexandrinos…» (p. 55), «[e] eu busco a
moderna e fina arte» (p. 81). E, no poema De
verão (pp. 90 e sqq.), apesar de dizer: «No campo; eu acho nele a musa que
me anima: / A claridade, a robustez, a acção.» - acrescenta: «(…) Eu mal esboço
o quadro / Da lírica excursão, de intimidade. / Não pinto a velha ermida com
seu adro; / Sei só desenho de compasso e esquadro, / Respiro indústria, paz,
salubridade.». Ou seja: respira a natureza e a indústria transformadora, que
implica o mercado, o mercado do norte da Europa.
«E eu, que urdia estes fáceis esbocetos» (p. 59). Fossem os esboços das mulheres inacessíveis da cidade («Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia / De vê-la aproximar, sentado na plateia, / De tê-la num binóculo mordaz!», p. 43) - ou os esboços da inglesa, da alemã, da irlandesa, esse «rural boy» (p. 85), todas elas pretensas lésbicas. Fossem os esboços das mulheres do campo – campos atravessados com as suas namoradas. Fossem os esboços das mulheres do lumpen (a engomadeira, a varina, etc.). De facto, Cesário, no retrato da mulher, que evidentemente o apaixona, e que sublinha com uma forte carga erótica, ultrapassa M. C. G. de que fala Baudelaire, monsieur Constantin Guys, o pintor da vida moderna…
É uma verdade que a poética de Cesário se aproxima das artes visuais. De Arcimboldo, o pintor quinhentista, em Num bairro moderno (pp. 60 sqq.): «E eu recompunha, por anatomia, / Um novo corpo orgânico, aos bocados. / Achava os tons e as formas. Descobria / Uma cabeça numa melancia, / E nuns repolhos seios injectados.». De Courbet, em Cristalizações (pp. 65 sqq.): «De cócoras, em linha, os calceteiros». De Manet, do Manet de Le déjeuner sur l’herbe (1863), essa obra pioneira da modernidade: «E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, / Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, / As saias curtas, frescas, engomadas». E, sobretudo, o papel da cor nos seus poemas: os loiros do sol, dos cabelos das mulheres, por exemplo.
Se os poemas dispersos (de 1873 a 1878) que acompanham O livro de Cesário Verde vivem de uma
mordacidade queirosiana, à excepção de Cadências
tristes, dedicado a João de Deus, essa mordacidade esbate-se em O livro de Cesário Verde. Não há, aí,
sátira. Crueza, quando muito: «Eu hoje estou cruel, frenético, exigente» (p.
53). Azedume, outras vezes: «Cismático, doente, azedo, apoquentado» (p. 114).
Talvez porque: «Ah! Ninguém entender que ao meu olhar / Tudo tem um certo
espírito secreto!» (p. 131); «Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes / E os
ângulos agudos.» (p. 53). Os ângulos agudos do interseccionismo (de Pessoa) e do
cubismo (mesmo do cubismo expressionista de Amadeo de Souza Cardoso), que ele
antecipou. «(…)Tu, por ora, / Preferes o romântico ao feroz.» (p. 93) - diz
Cesário a uma prima. Não era, definitivamente, o caso dele…
Etiquetas: Cesário Verde, literatura portuguesa





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