24.1.12

Presença no e do feminino



Em Art and Objecthood (1967), Michael Fried escreve que o minimalismo (literalism, para ele), em vez de propiciar uma experiência de theatricality, propicia uma experiência de presentness - deixando o espectador no seu quotidiano, num mundo não transcendente, e traindo, assim, o que é deveras discutível, as propostas do modernismo.

Ora, essa presentness é, aparentemente, característica desta série de fotografias. Trata-se, porém, de uma série ou de várias séries?  E o que fotografa Milena M.? O corpo - o seu corpo (seios, sexo, coxas, o mais das vezes, lábios, poucas vezes). Umas vezes o corpo é fotografado na sua nudez. Outras, num envolvimento de tecidos (brancos, azuis escuros, negros, vermelhos escuros; há, ainda, a roupa interior, onde predomina o branco pérola e o azul escuro). E fotografa-o com um telemóvel. Depois, essas fotografias são tratadas a preto e branco.

Apropriando-me do título de um livro de Barthes, podia dizer: são fragmentos de um discurso amoroso. Talvez. Mas, o discurso amoroso implica um rosto. Podia, então, dizer: são fragmentos da sexualidade feminina. Talvez. Até porque nestas fotografias não há um rosto - ao contrário, por exemplo, dalgumas fotografias de Carla van de Puttelaar, que lhe é próxima.

Para Louise Bourgeois, o que distingue o erotismo da pornografia é, justamente, a ausência do rosto - a sexualidade enquanto acto mecânico. Que não é o que se passa aqui. Não há, aqui, aparentemente, qualquer vestígio de erotismo. Como não há, aqui, qualquer vestígio de pornografia. Há, isso sim, os traços da pele - que, é certo, podem re-construir uma erótica, mas não em torno deste corpo sem rosto, deste corpo decepado. Há a pele enquanto elemento natural e enquanto elemento artificial e/ou cultural (os tecidos de várias cores). Há a pele enquanto elemento de sedução. Há a pele enquanto abandono. No limite, há a pele enquanto presentness. Melhor: a pele enquanto dádiva.

Todavia, a pele não tem a presentness da pop e da minimal (se é que uma das marcas da minimal é a presentness - creio, porém, que as questões em torno da pop, da pop UK e das várias pop USA, e da minimal são bem mais complicadas). De facto, a pele pode ser minimamente identificadora. Sinais, rugas, etc. podem propiciar, ainda que de modo difuso, uma identificação. Mais: podem abrir para a adivinhação, para o ser-presente de um rosto. Como o index das esfinges.

Por outro lado, a pele é matéria da pintura do renascimento e do barroco. Mas, também, do modernismo (caso de Olympia (1863) de Manet, por exemplo).  Ou do ciclo Ein Handschuh (1881) do simbolista Max Klinger. Neste, a luva, essa segunda pele artificial e/ou cultural, é um elemento fétiche, que Freud há-de estudar.

Voltando às fotografias da série (ou séries) de Milena M.. Escrevi atrás que não havia, aparentemente, vestígio algum de erotismo. De facto, assim parecia. Mas, afinal, a pele tem uma erótica intrínseca, que pode conduzir ao fétichisme erótico e/ou sexual. E a pele, se não consegue delinear os contornos de um rosto, pode, pelo menos, deixá-los entrever. Ou seja: o que nos parece imediato, não o é - é mediato. E, apesar de a pele ser uma presença (sedução, abandono, dádiva), está num registo diferente da presentness de Fried (o quotidiano, o mundo não transcendente). Mais uma vez, como a esfinge, a pele indica sem indicar. Indica que estes fragmentos de um corpo (a(s) série(s) de fotografias) são fragmentos de um corpo (o corpo do modelo) que se desvela na ocultação. Como nos fragmentos de um discurso amoroso, contidos em qualquer erótica.

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