2.1.12

Entre Guerra Junqueiro e Gomes Leal

A morte de D. João é de 1874. O primeiro O anti-Cristo é de 1884-86. Guerra Junqueiro é apolíneo. Gomes Leal é dionisíaco. Um é um geómetra. O outro é o informe. Apesar de tudo, há ideais que os unem. O positivismo: «(...) a poesia moderna deve ter um carácter científico», escreve Junqueiro no prefácio à segunda edição de A morte de D. João [10ª ed., Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1921, p. X]. A questão da consciência humana: «(...) a Justiça é a consciência colectiva» (p. 318) - até porque está interligada com a morte de D. João - «(...) o que há de doentio na sociedade moderna: o idealismo [ao qual contrapõe, na página XIX do prefácio, uma «poesia revolucionária»], o tédio, as nevroses, a indiferença, a dúvida, a falta de carácter» (p.320) - e com a morte de Jeová - que «representa a tirania, o direito divino» (p. 320). A exaltação da natureza. A definição da mulher - que é «essencialmente fraca, nervosa, imaginativa» (p. XIV).

Há um outro tema que liga Guerra Junqueiro e Gomes Leal. Trata-se de uma asserção subdividida: «[a] arte deve ter um carácter universal», enquanto ponto de convergência das várias ciências; e «[a] arte tem e deve ter um carácter progressivo», isto é, ser «a síntese do seu tempo» (p. 319).

Todavia, a elegia de Prometeu desagrilhoado e de Cristo renascido (que implica o justo, o bom, o feliz - se substituíssemos feliz por belo tínhamos a tábua de valores de Platão) afasta Guerra Junqueiro de Gomes Leal. Assim como a crítica ao romantismo: «(...) quantas doenças não têm sido produzidas desde 1830 [embora o livro seja dedicado a Herculano...] pela sentimentalidade doentia do romantismo desgrenhado e piegas?» (p. XIX); e ao romantismo tardio: «Tornou-se o nariz esquálido, purpúreo, / Por causa das paixões e do ultra-romantismo», diz D. João quase no fim do poema (p. 288).

Para trás fica um retrato, com ecos baudelaireanos («(...) Todas as expressões da natureza / A lua, a cor, a música, os aromas...», diz D. João, p. 253), da vida na cidade moderna - que é, aliás, o mal. Em contraponto com a ruralidade (os camponeses que vêm a cantar do trabalho, as crianças, etc.) - que é, enquanto sinónimo de natureza, o bem. Para trás fica a morte do velho D. João - morto a tiro («Simplesmente um revólver de seis tiros.», p. 254) pelo novo D. João, o herói romântico. Que, por sua vez, nunca poderia morrer assim: «na sua qualidade de parasita, morre como deve morrer: de fome» (p. 322). Ou não tivesse a poesia moderna um carácter científico, como escreve Junqueiro. Ou, ainda nas suas palavras, não fosse a poesia moderna revolucionária, quer dizer, anti-romântica...

Construído metodicamente, A morte de D. João alia um fulgor discursivo (carregado de imagens, muitas delas repetindo-se ao longo do poema, porque «[h]oje a arte (...) é de uma correcção geométrica, pitoresca, inexcedível. Cada adjectivo é um bisturi», p. 316) ao «senso moral» (que é a consciência humana como consciência colectiva, a saber, a justiça) e à «alegria» - «heróica, sincera, verdadeiramente humana, a alegria que é o oxigénio do espírito, e que provém da nobreza do carácter, da consciência tranquila e da saúde robusta» (p. 316). Por isso mesmo, «[a] poesia é a verdade transformada em sentimento» (p. X): «Eu era mudo e só na rocha de granito.» (p. 1), assim começa o poema. «Ó abismo do mar, o mar do pensamento / Também tem como tu a mesma tempestade: / As três luas do Bem, do Belo e da Verdade (...)» (p. 5). E, mais além, fora da natureza («o grande paraíso», p. 9), «[e]ra a cidade imensa, a meretriz das gentes.» (p.3). «E a causa d'isto tudo é o velho Padre Eterno / E o velho D. João: / Um fez o lupanar, o outro fez o inferno; / Um a tirania, o outro a devassidão.» (p. 34). «Comecei a escrever então esta epopeia.» (p. 44). Uma epopeia de «versos febris, agudos como espadas» (p. 61) «[s]obre a desfeita geração escrava / D'um século maldito.» (p. 179).

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