29.4.20

No silêncio da luz


No silêncio da luz, a orelha tem que estar atenta a qualquer questão. Sabendo de antemão que cada questão transporta uma nova questão. Como uma teia. Essa teia está no caminho que o pensamento percorre. E acaricia-nos o rosto.


13.3.20

Diante do vírus

Diante do coronavírus há que evitar o temor do temor, o medo do medo - como escreveu, em finais de oitocentos, Schopenhauer a propósito do medo, do temor. Este é o axioma. Um axioma que, todavia, implica múltiplas inferências, umas mais adequadas do que outras. 

A primeira é a do fim do mundo (não confundir com o fim da civilização ocidental) - um fim do mundo que vem a ser propalado por causa de sucessivos desastres ecológicos.  Estamos, aqui, na área do biopoder: há acordos que são respeitados parcialmente e/ou pura e simplesmente desrespeitados pelos governos democráticos e ditatoriais, com consequências gravosas e sem retorno, ou quase, para o ecossistema. Esta inferência dirige-se ao capitalismo. Que, como se sabe, é o único sistema (económico-social) que reconhece os seus erros ao mesmo tempo que reconhece a im-possibilidade de os corrigir, como sublinha de forma certeira Badiou no recente Trump. Eis o temor, o medo.

Consequência desta lógica que sustenta o capitalismo, temos a segunda inferência. A globalização, por cujos canais o capitalismo erra, e que implica a queda lenta e inexorável da civilização ocidental - e a ascensão do multiculturalismo. Daí, aliás, a questão que os curadores dos museus europeus e norte-americanos debatem: como integrar no espaço dos museus ocidentais culturas outrora dominadas e/ou colonizadas ou sexualidades outrora reprimidas, etc. Daí, ainda, a questão dos migrantes, sem dúvida uma questão humanitária, consequência de uma política ocidental em que a UE não existe nas suas tergiversações. Daí, entretanto, a questão do fim do estado social - e do fim da democracia, se é que a há.

Não bastasse este pano de fundo, temos agora, à escala global, a epidemia (ou pandemia) do coronavírus. Com consequências para a saúde e com consequências para o capitalismo. Por outras palavras: dirigida à vida (que é sempre vidamorte) e dirigida ao capital. E, diante da qual, resta, aparentemente, declarar o estado de excepção, que Schmitt teorizou antes da II guerra mundial, aplicando-a na república de Weimar, e a reposição de fronteiras (fronteira é um conceito chave na obra Ernst Jünger, em particular Passagem da linha, que ele estendeu da I guerra mundial (em que lutou, sendo várias vezes ferido) à II guerra mundial, e dedicado a Heidegger, o qual analisa detalhadamente o conceito de linha). Contra o estado de excepção e a reposição de fronteiras está Agamben (ver, também, Sulla fine del mondo, novembro 2019, e Contagio, março 2020), a quem Jean-Luc Nancy responde com um argumento que é uma falácia ad hominem, donde uma não-resposta, como o mostra claramente o último parágrafo do texto.

Que pensar, então, diante do coronavírus? Em precaver-se, evidentemente. Mas, por outro lado, a defesa da vida, da vidamorte, implica sempre o poder do soberano (seja a OMS, sejam os governos democráticos, sejam os governos ditatoriais). Ora, este poder do soberano, o poder da vida, e não o poder da morte (como nas monarquias absolutas, na pena de morte, etc.), é o biopoder, tal como foi pensado por Foucault. Ora, é esse poder do soberano que mete medo. E que nos leva a questionar a democracia, se é que a há.