10.12.25
Da melancolia
7.11.25
Do inalcançável
3.11.25
A voz de Eco
A filosofia de Levinas foi sempre um caminhar ao encontro do Outro. No caso desta antologia de Luís Quintais, uma antologia de três décadas, logo num primeiro texto, aliás um texto em prosa, é referido o papel do eco. Podia ser, partindo do título, A destruição do tempo (Assírio & Alvim, 2025), o papel da imagem reflectida nalgum espelho ocasional, caso de uma réstea de água - mas não, não há aqui Narciso algum, apenas a sua sombra por castigo de uma ninfa, a ninfa das montanhas. Há, sim, um eco - apenas uma voz, como aconteceu mais tarde à ninfa grega das montanhas com este nome, Eco - herança, que foi, do castigo aplicado a Narciso. Melhor: há o eco - a voz de Eco. Daí, a destruição do tempo que os poemas evocam constantemente, em vez de os fixar enquanto destroços, fixa-os enquanto um eco tecido pelas palavras do próprio poema e, também, de poema para poema. O que, enigmaticamente, faz os poemas derivarem de si para o Outro, aquele que segundo Levinas nos justifica e absolve. Neste caso, o poema.
A voz de/do Eco, seja nome próprio ou comum, atravessa também Nocturama (Assírio & Alvim, 2024), a casa da noite - seja enquanto perante-a-origem seja enquanto perante-o-apocalipse. Com um ponto a reter: a casa da noite é uma casa de fantasmas, essa sombra difusa dos mortos. Leia-se, por exemplo, Per me si va (pp. 87-90) - traduzindo: Por mim vai-se - que remete para o Canto III do Inferno de Dante, e que termina assim: «Não há rosas claras, // metonímia de anjos e bem-aventurados, em lado algum». Ou Sunt lacrimae rerum (pp. 106-107) - traduzindo: São lágrimas das coisas - que remete para a Eneida, I, 462, de Vergílio, e que termina assim: «As lágrimas das coisas é tudo o que / resta já, suspensão tão luminosa / de que se faz a sobrevivente poesia». Ora, a "sobrevivente poesia" é, para todos os efeitos, a voz do Eco. Por isso, «Cada um dirá numa linguagem extinta / o seu luto» (p. 78). Ou: «A palavra que resta, quem a retirará / das águas? E serão límpidas as águas, / ou opaca criação de um deus / que não reconheceste / e que nos espreita / no vidro do desconcerto, / a necrópole do mundo? // A vida da poesia é / este modo de dizer o / o que é limite do pensar» (pp. 110-111). Ou ainda: «Habitei margens, convoquei ecos. // Pensar é luz que fere, / noite após noite» (p. 114). E: «Mas o que é a poesia / se não o vestígio ou a manifestação / da vontade, a história indeclinável, / do corpo, sem origem? (p. 144). E por fim: «Material baço são as palavras, / mas substância de delicados densos // instrumentos com os quais / colhemos a flor da melancolia» (p. 148). É esta a meada de Nocturama, aqui, nestas últimas citações, entre Schopenhauer (a música como eixo filosófico) e Baudelaire (eterno cisne debicando o antigo para desvelar a modernidade), entre "a manifestação da vontade" e "instrumentos com os quais colhemos a flor da melancolia", conduzida por ecos e/ou por Eco ("convoquei ecos"). E, convocando ecos, convoca tonalidades, tonalidades fantasmáticas das origens e/ou do apocalipse de que falam alguns poemas. Onde também Hölderlin é um eco: «o que se antecipa e acaba retrospectivamente / no drama, o rosto gravado desse jovem Hölderlin / de colarinhos imaculados e olhos submersos / por uma serenidade que o mundo haveria de trair. / Trair é a palavra» (p. 80). E na página seguinte escreve o último verso deste poema: «Anoto: é de noite que a soberania da linguagem se desfaz». Talvez por causa do seu próprio eco, por causa do eco que a habita.
30.9.25
Caminhos para abolir o eu
14.9.25
Encontros com Giacometti
Este encontro é um encontro provocado. Chafes interroga a obra de Giacometti, prolongando-a numa linha teórica que é, dado nunca abdicar da sua própria matriz, um confronto, um conflito. Aqui:
Chafes e Giacometti. Gris, Vide, Cris. Centro de Arte Moderna Gulbenkian, 2023.
22.8.25
Jeanne d'Arc (1879)
Jules-Bastien Lepage (França, 1848-1884), The Metropolitan Museum of Art, New York.
15.8.25
Pã perseguindo Siringe
10.1.25
A diligência na neve
A diligência na neve (1860, National Gallery) remete para a pintura de paisagem de Courbet - e não para a desconstrução que opera da pintura de história
(caso, por exemplo, de Un enterrement à Ornans (1849-1850) ou de L'atelier du peintre (1854-1855), ambos do Musée d'Orsay).
Entre a convulsão das nuvens, patente nas cambiantes de negro do céu, em particular no canto superior direito, uma negrura de tempestade, e a convulsão da neve, de um branco sujo e por vezes acinzentado, a diligência tenta abrir caminho para entregar sabe-se lá o quê. Mas que é de uma entrega que se trata, não há a mínima dúvida. Por exemplo: entregar(-se) ao espectador...







