'Pára-me de repente o pensamento' - como pára o cavalo diante do abismo, para depois se lançar naquele bréu, bem escuro, imperscrutável. Este belíssimo poema de Ângelo de Lima, publicado em 1915 em Orpheu, a revista do primeiro modernismo, e que traz ecos da poética de Hölderlin, que seguramente não conhecia, evoca um outro poema, este de Mário Sá-Carneiro, de 1914, publicado no livro Dispersão e, antes, em Orpheu: 'Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim'. Para acrescentar: 'Perdi a morte e a vida, / E, louco, não enlouqueço'. O termo que os gregos tinham para estes estados era ataraxia.
letra corrida
| Caderno de trabalho |
9.10.26
Diante da palavra
É uma luta primordial com a palavra que conduz ao poema e/ou à sua tradução. Aqui, esse confronto não é traição, com na velha máxima tradutor/traidor, mas trazer o Outro, a sua sombra, para a página, iluminando-a ao mesmo tempo que se ilumina o texto original, isto é, das origens: a archê.
20.9.26
Habitar a terra: um século sob o signo do efémero, mesmo na arte
1.Viver, isto é, habitar a terra, é percorrer a precariedade dos trilhos que, numa espécie de simbiose, expõem também a nossa precariedade. Todavia, os animais percorrem os trilhos com total ignorância dessa precariedade. Porquê? Porque tudo lhes é absoluto. Não assim para nós. Vivemos (n)o efémero.
2. Aliás, quem em meados de oitocentos falou do efémero, do transitório e do fugitivo, aqui a propósito da beleza, foi Baudelaire em O pintor da vida moderna, de seu nome Constantin Guys e, estranhamente, não Manet ou Courbet. Aliás, Baudelaire, enquanto Hausmann rasgava Paris a régua e esquadro, e um cisne, di-lo num soneto, debicava por entre os destroços da velha Paris, escreve: em cada época devemo-nos ater à sua beleza, por tão estranha e mínima que seja.
3. Um século mais tarde, no rescaldo da II Guerra Mundial (1939-45), e com a influência de Jean Fautrier e de Lucio Fontana, eis que Ryman, Blanky Palermo, Piero Manzoni fazem as suas pinturas brancas - eventual acentuar do depois da guerra e do depois do holocausto, uma espécie de dia seguinte, apesar de amargurado. Estávamos em meados de 1950, princípios de 1960. E sob o signo do efémero.
4. Ora, é sob este signo, e nestas mesmas datas, nos anos 1950, que Beckett escreve À espera de Godot, e Ionesco, o homem do teatro do absurdo, escreve A cantora careca.
5. Vinte anos mais tarde surgem em Itália as Brigadas Vermelhas. Dez anos antes tinha surgido na RFA o grupo Baader-Meinhof, do qual Gerhard Richter, vindo da RDA para a RFA, e que aqui começa a pintar nos inícios dos anos sessenta, vai trabalhar as fotografias da morte de Ulrike Meinhof, do seu companheiro, Andreas Baader, e de outro membro, como fazia, aliás, com outras fotografias do seu Atlas, e expõe esses trabalhos - sem qualquer vestígio ideológico, apenas na sua materialidade. Como eventualmente aconteceu com as pinturas brancas.
12.6.26
Sob sobre a pintura de Hockney
A Bigger Splash (1967, Tate), de David Hockney, talvez mostre a influência que ele sofreu de uma tela de Matisse: Luxe, calme, volupté. Estamos, nesta tela de 1904, num território que foi nos inícios de 1900 dos fauves, das feras - o fauvisme. E, de facto, há na tela de Hockney, luxo, calma e o splash, que sendo bigger, o maior, talvez indicie o mergulho do corpo amado, da volúpia. Quem sabe? Mas, há uma outra influência: a do realismo de Edward Hooper (USA, 1882-1967) - a solidão das grandes paisagens urbanas e rurais, em grandes planos ou planos de profundidade. Entretanto, há, além de Matisse, um outro nome que fascina Hockney: Picasso. Ora, Les Demoiselles d'Avignon são de 1907, e com esta tela nasce o cubismo.
Metido na gaveta da pop, Hockney sempre a recusou. Mas, as piscinas, habitadas ou não, cenário homossexual ou não, estão aí para prová-lo. Basta olhar para o que de subentendido há nesta tela: alguém mergulhou. Quem? Está vivo? Está morto? E a tela vai sendo composta por céu, duas palmeiras, parede, portadas de vidro, pequeno banco, canteiro com relva, piscina com trampolim - tudo em pedaços ou minúsculo, o que evidencia, aliás, como tudo caminha subrepticiamente para o primeiro plano. E o azul, variando entre céu e água. Porque a cor é o sob sobre na pintura de Hockney. A cor é tudo para Hockney. E a perspectiva. Mais tarde, quando regressa dos USA, começa a trabalhar com fotografia, com polaroides (Richter fazia-o desde 1962).
Por outro lado, há um colega do curso de Hockney na Royal Academy: Patrick Caulfield. Em Caulfield, a pop, a colour field, a abstracção. Em Hockney, o quotidiano com as suas múltiplas manifestações - embora distanciando-se cada vez mais da pop made in USA. Eis, afinal, dois vectores dos anos 1960. Ainda que haja outros. E que ocorreram na mesma altura: de 1960 em diante.
Um desses vectores tem a ver com as telas brancas de Ryman e de Blinky Palermo e com a abstracção de Gerhard Richter (ele fala, num diálogo com Benjamin Buchloh, de realismo) - Richter tem uma escultura em colaboração com Palermo, e ambos vieram da Alemanha de leste para a Alemanha ocidental, antes da construcção do muro. Outro vector foi o neo-expressionismo, que vai de Georg Baselitz a Anselm Kiefer - Kiefer trabalha, obsessivamente, memórias do holocausto nazi (caso de um trabalho sobre o poeta Paul Celan).
De modo diverso, entre o real (o realismo) e os seus duplos (o esfacelamento desse real com um rodo e/ou uma espátula, a ponto de o tornar mera abstracção), eis como Richter usa o Atlas onde guarda inicialmente recortes e fotografias de jornais e revistas do Ocidente e, pouco depois, também fotografias pessoais, sendo ele o fotógrafo.
Não é o caso de Hockney. Cor e perspectiva transformam a tela num mostrar e esconder ao mesmo tempo - as duas faces da vida, afinal. O que, aparentemente, confirma a recusa de Hockney de pertencer à gaveta da pop. Daí, a figuração de Hockney acabar por ser uma ilusão. Uma ilusão que nos chama. Encantatória.
6.6.26
Jorge Molder: 'Come di'

2.6.26
Ecos abafados
16.5.26
Marcas e sinais
24.4.26
O princípio da incerteza
Dizem: atravessa este livro a melancolia - ao contrário do livro anterior, Divisão da alegria (2022). Todavia, a melancolia é a suspensão do gesto, caso das cantigas de amigo dos cancioneiros medievais. E, aqui, em Postes de luz para cães vadios (2026), suspensão do gesto é algo que não há. Diz: "estou em guerra comigo" (p. 11). E acrescenta: "vim para dizer: / não preparei o meu coração para a guerra." (p. 13). Eis a confissão de um ser cindido - de uma cesura. Só que essa cesura perturba a poesia e leva-a para o terreno da prosa, para uma discursividade centrada no sentir de um eu (marca do pós-modernismo). Pelo que, e di-lo com todas as letras, "Após as ruínas do capitalismo / voltaremos à imaginação" (p. 83).
Todavia, apesar da raiva que atravessa Postes de luz para cães vadios, essa luz, aqui agreste, vem de trás, ainda que mais ténue: falo de Divisão da alegria. E o tema da cisão do eu, o mesmo é dizer divisão da alegria, mostra como contaminou, depois, tudo à sua volta, caso do segundo livro. Todavia, há neste livro inicial dois poemas de que gosto particularmente: Namorar em língua camoniana (pp. 80-81) e Uma folha arrancada do caderno (pp. 84-85). Neste último pode-se ler: 'respiro como se atirasse pedras a um destino ferido'. E lá está a cesura que se acentua até ao limite em Postes de luz para cães vadios, que muito bem podia ser postes vadios para cães de luz. Aliás, este jogo vai de encontro a um verso fulgurante: 'a noite conduz-me os olhos como um maluco' (p. 110). Verso este que se encontra com um outro de 'Cuidar de búfalos': 'a água está sempre nua / está sempre pronta' (p. 108). Ora, este encontro entre nudez (nua) e dar-se (pronta) é, afinal, o encontro da poesia consigo mesma. Daí, neste livro inicial, a prosa, isto é, a discursividade em torno do sentir do eu, não ter lugar. Porque, aqui, o eu é um tanto ou quanto mero fingimento...
4.4.26
Angelica Kauffman, Portrait of Emma, Lady Hamilton, as Muse of Comedy, 1791
2.4.26
Da diferença, esta
Qual a linha de demarcação, se é que existe, entre a Shoah e a escravatura, o esclavagismo? A Shoah tem uma data, 1939-1945, a II Guerra Mundial - ainda que os campos de extermínio sejam de 1940-41. O esclavagismo, pelo menos o esclavagismo lusíada, vai de quatrocentos a oitocentos - ainda que, de facto, se prolongue até aos dias de hoje (veja-se como são tratados os migrantes). A Shoah mata o pouco que ainda há de vida, o que resta da vida - tem o inumano como programa. O esclavagismo explora como programa. Ou seja, a linha de demarcação está entre o inumano e o desumano. Entre considerar o humano como não humano e o considerar o humano como algo que pode ser explorado e comercializado (e não só em termos de mão-de-obra), isto é, ser fonte de lucro. Assim, há uma linha que os separa: de um lado, o extermínio; do outro, o racismo. De um lado, o Outro como im-possível. Do outro lado, o Outro como mercadoria.
7.1.26
Gerhard Richter e os caminhos da abstracção
1.
Ema em 1966
Gerhard Richter, Ema, 1966.
Porque escolhi esta pintura de Gerhard Richter, que teve como referência uma fotografia tirada por ele e que não é, aliás, a sua primeira pintura feita na RFA, isto segundo o catálogo raisonné por ele cuidadosamente orientado (é Tisch, Mesa, 1962)? Há aqui uma mulher, Ema, na altura sua mulher, grávida, que desce nua uma escada. Além disso, a tela está coberta por uma espécie de nevoeiro com várias intensidades, correspondendo a outras tantas variações cromáticas (variadíssimos tons de castanho donde ressalta, como contraponto, o acetinado da pele, sombras negras nas escadas, mostrando que a luz vem do lado esquerdo da mulher, cinzentos claros e luminosos). Todavia, o punctum da pintura, para utilizar um termo que Barthes usa em La chambre claire a propósito da fotografia, aquilo que nos prende de imediato o olhar é o triângulo que encobre o sexo, o púbis, deslizando, depois, pelo corpo até à mancha negra do cabelo e, daí, até ao topo da escada, espécie de quadr(ad)o negro (como o Quadrado Negro (1915) de Malevich), configurando mulher e espaço envolvente (degraus, corrimão, paredes, etc.).
Antes, em 1912, Marcel Duchamp pinta um Nu descendo uma escada (nº 2), súmula de des-figuração e movimento, que esboços de círculos embrionários acentuam.
Já em 1882, Étienne-Jules Marey faz uma cronofotografia intitulada Man Walking.
E Eadweard Muybridge, que colaborou com Marey, faz em 1887 uma curta-metragem intitulada Woman Walking Downstairs.
A influência de Marey e de Muybridge sobre Duchamp é evidente. Diga-se, entretanto, que Richter prestava, então, particular atenção à obra de Duchamp, assim como a dois nomes da pop art: Warhol e Lichtenstein.
Entretanto, eventualmente nos finais dos anos 1990, devendo pertencer à série Nus, surge esta fotografia de Thomas Ruff:
É de uma figura fugidia, quase mutante, que se trata, sugada pela parede que reflete a sua sombra, parte do rosto visível assemelhando-se a uma máscara. Nada a prende, pois, à Ema de Richter. Enquanto na fotografia de Ruff a figura está imóvel, tendo sido trabalhada por processos digitais (como as figuras de Warhol e de Lichtenstein), Ema é uma figura movente. Todavia, esta fotografia de Ruff parece querer evocar um trabalho seminal de Rauschenberg, em que este praticamente apaga (ficam, todavia, marcas do lápis, como se de pegadas se tratasse) um desenho de de Kooning, um dos nomes do expressionismo abstracto, com um título significativo: Erased de Kooning Drawing (1953):
Note-se que este trabalho de Rauschenberg foi executado em diálogo com de Kooning, que, aliás, cedeu o desenho, afinal um diálogo entre duas fases do expressionismo abstracto. O que abre novas perspectivas às neo-vanguardas surgidas a partir de 1950, isto é, aquando da segunda fase do expressionismo abstracto (mas, também, da abstracção informal dos anos 1940-50, precisamente uma resposta ao expressionismo abstracto): pop art, nouveau réalisme, op art, land art, arte povera, minimal art, conceptual art, performance, video art interagiam - sobretudo ao declarar a morte da pintura.
Voltando a Richter. Outras questões andam em torno da sua obra. Com educação escolar e artística na RDA, onde fez fundamentalmente pintura mural segundo as premissas do realismo socialista, pouco antes da construcção do muro vai para a RFA. Antes tinha começado a fazer o Atlas: uma colecção de fotografias tiradas dos mais variados media (jornais, revistas, etc.) - que vai crescendo, agora já sem a censura, e onde escolhe motivos para trabalhos a partir da fotografia ou para quadros abstractos, sempre com a tinta raspada com um rodo, onde predominam o amarelo-ouro, o vermelho, o azul e, por vezes, o verde.
Todavia, há no Atlas quatro reproduções de fotografias clandestinas de pilhas de mulheres gazeadas e atiradas para valas comuns, impedindo assim qualquer testemunho, tiradas em Auschwitz-Birkenau por Sonderkommandos, que eram também prisioneiros encarregados desta tarefa e que esperavam, também, as câmaras de gás ou o tiro na nuca. Depois, fotografias do bombardeamento de Dresden pelos aliados em 1944. Como viver com estas memórias? E como as transpôr para o seu trabalho?
Mais. Como, apesar do manifesto interesse pelo trabalho de Duchamp, de Warhol (o Atlas evidencia-o sobejamente) e Lichtenstein, figurar uma mulher nua, grávida, num enquadramento manifestamente sexual, e expondo um contexto familiar (Richter tinha fotografias de vários membros da sua família, desde o pai que detestava, do tio vestido com o uniforme das SS, que morreu no início da II Guerra Mundial, à tia esquizofrénica, que adorava, morta num campo nazi através de experiências de eutanásia clínica levadas a cabo pelo seu futuro padastro, às duas futuras mulheres, fotografadas por si)? Há algo que parece entrar em choque entre dada e a pop, por um lado, e Richter, por outro. Será mesmo assim? Acaso não haverá um encontro subterrâneo com L'origine du monde (1866) de Courbet, apenas um torso (a visibilidade do sexo feminino contrapõe-se à visibilidade do sexo masculino na estatuária greco-latina e renascentista, tal como na pintura e escultura do Renascimento) e, simultaneamente, anúncio do nascimento de uma pintura outra, neste caso o realismo, pintura outra essa que irá permitir que, mesmo ao lado, usando uma outra matriz, Manet prepare a modernidade?




