6.5.22

Charlie


 E eu saúdo eu  §  os mortos  §  os que já morreram    §§§

(...)

(Qohélet, IV, 2, trad. Haroldo de Campos).

 

26.4.22

Publicações

 1. Poesia


a memória da invençãocol. Exercício de dizer, Porto, 1976.

A idade do olhar, in Exercícios de dizer, col. Exercício de dizer, Porto, 1977, pp. 56-64.

Aí a sombra: o dizer, ed. Caminho, Lisboa, 1990. 
 
Matéria de olhar, Limiar, revista de poesia, nº 10, Porto, 1998, pp. 33-36.
 
Caminhos de definição. [O livro O caminho da definição, ed. Mortas, Porto, 2002, que já incluía Matéria de olhar, foi muitíssimo revisto, estando integrado, agora, no livro Em sombra de sombra]. 


2. Da poesia e da filosofia
 


 
3. Tradução

Poemas de Nietzsche [alguns poemas].

Louise Glück, Receitas de inverno do colectivo, poemas [2021; alguns poemas].

Patricia Lockwood, Torrão-materno, torrão-paterno, torrão-sexual [2014 (USA); 2017 (UK); alguns poemas].


4. Ensaio

a. Filosofia





O injusto. [Não está terminado].


 


b. Artes visuais

Sobre arte, Galeria Quadrado Azul, Porto, 1993.

Rui Aguiar. Açoriana. A ilha e a luz (colaboração de Fernando Pernes, Nicole van Wassenhoven), Galeria Quadrado Azul, Porto, 1993.




c. Literatura portuguesa

17.9.21

Os neo-neo-ismos de XXI

O século XXI é o século dos ismos enquanto neo-neo. O que significa que há sempre um elástico imaginário que prende passado e futuro - apesar de o século XXI viver apenas o presente. Mas, este presente, este ser agora, este ser instante, apesar de ser uma aparente anulação do tempo, é apenas a sua suspensão. Donde, o século XXI é a suspensão do tempo - porque o a-vir ainda é tão-só a-vir, é o ainda-não-do-já (Heidegger). É a suspensão de uma comunidade a-vir.

Daí o século XXI ser já não o declínio do Ocidente (Spengler), mas sua morte, a morte do Ocidente - que, verdade seja dita, começou com a primeira guerra mundial (1914-18). Todavia, aí, ainda havia um projecto de vida, nem que fosse suicidário. Muitos foram, aliás, os artistas que se alistaram para viver no limite a morte. E poucos os que sobreviveram. 

Como muitos foram os movimentos artísticos de vanguarda que percorreram o século XX: das vanguardas russas ao neo-plasticismo, dos expressionismos a dada e ao surrealismo, da pop à arte povera e ao conceptualismo. A partir de 1989, ou até um pouco mais cedo, a partir dos anos 1970, começam os movimentos neo-: neo-pop, neo-expressionismo, neo-geo, etc.

O século XXI foi ao encontro da body art e do vídeo, movimentos do outro século. E transformou o corpo em constante performance, contagiou-o. Contágio e corpo são, aliás, as palavras do século XXI. No limite, a tecnociência: a engenharia genética e a espacial.

De facto, contágio e corpo atravessam a primeira guerra mundial (1914-18) - caso dos gases usados em combate pela Alemanha e pela Áustria-Hungria. E a tecnociência atinge um auge, na Alemanha da segunda guerra mundial (1939-45), ainda que antes tenha havido um movimento de sentido contrário com o lema terra e sangue - de que o nazismo se apropriou. Mas, a tecnociência também atinge um auge em Hiroshima e Nagasaki.

Com a contestação estudantil dos anos 1960 (a favor do corpo e contra a guerra do Vietname), com os movimentos de emancipação dos negros (mais uma vez o corpo), cidadania e corpo dão-se as mãos. Há o direito à cidadania. Há o direito ao corpo. Entretanto, por esta altura, uma exposição de Mapplethorpe foi cancelada num museu norte-americano, logo depois de abrir.

Por fim, neste século, o XXI, o corpo atinge um significado quase absoluto e a cidadania é usurpada pelas redes sociais, pela demagogia, pela mentira, pela violência. É o caso, por exemplo, dos movimentos negacionistas. E a democracia, se é que existe, é um mero fantasma, (...) a tale / told by a idiot full of sound and fury, / Signifying nothing. (Shakespeare, Macbeth).


7.6.21

Nuno Júdice & Daniel Jonas: words, words, words...

Deixei de ler a poesia de Nuno Júdice depois dos poemas de Cartografia de emoções (2002). Porquê? Tratava-se de repetir o já dito - algo muito comum na poesia portuguesa e que se vê a olho nu nas recolhas do ano tal até ao ano tal ou nas obras incompletas, inacabadas ou o diabo que as carregue. Por isso, foi a medo que comprei Regresso a um cenário campestre (2020), que de cenário campestre tem o último poema. O resto é a erótica, vinda do renascimento e sem soluções inovadoras, em torno da mulher amada e a questão sobre o tempo: « (...) como se o tempo / não mudasse o mundo e a própria forma / como o vemos» (p. 57) - verdadeiro achado de La Palisse. Apesar de tudo, dois poemas chamaram-me a atenção: os das pp. 56 e 86. E fugi de "coisas" (4 ou 5) como O problema da justiça  (p. 78).

 

*

 

Daniel Jonas leu o poema Dispersão do livro homónimo de Mário de Sá-Carneiro, que começa assim: «Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim». E estoutro de Indícios de ouro: «Eu não sou eu nem o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte do tédio / Que vai de mim para o Outro». E, ecoando Maia-Pinto (por exemplo, p. 37), Sena (p. 91 sg.), a poesia inglesa, constrói Cães de chuva (2021). Onde diz: « (...) Um poema é / o fim depois do fim / após a morte, antes da terra.» (p. 36) - que é um des-ocultar a origem das origens. Mas, depois: « (...) Alguém terá vivido a minha ausência. (...) dum mundo onde não vivo (...)» (p. 98). Mas, antes, p. 37: «É triste sermos nós até para nós». Ou: «É tudo triste em vez de ser só ser». Então, onde ficamos? Na origem das origens - onde se desvela o ser? Diante de um mundo onde (o eu, o sujeito) não vive, isto é, não é diante da morte, mas é na morte, o que é triste? Eis a re-visitação do pessoano fingimento. Words, words, words...


26.5.21

Uma poética do esfacelamento

Antes de O vale da estranheza (2021), Catarina Costa publicou Essas alegrias violentas (2020), ambos uma edição da Companhia das Ilhas. Aí, partindo de uma epígrafe de Barthes, tirada de Fragments d'un discours amoureux, acerca da luta (em grego: polemos) entre o amado-não-amado e o amante-que-ama-o-amado, CC constrói núcleos temáticos sobre o tempo, o tédio, a morte, o amor - temas constantes de puro esfacelamento (esfacelar é, eventualmente, preferível a luta, a polemos) na dobra do poema. Aliás, esse esfacelamento, que mais não é do que eco (lembremos Narciso, o amador e o amado) efémero e tardio («a minha réplica às tuas palavras esgota-se no eco», p. 34), vai-se agudizando ao longo do livro: da p. 11, por exemplo, à p. 14, à p. 23, à p. 27, à p. 33, à p. 40, às pp. 48 («e já não sabemos sequer qual de nós seria o consolador / e qual seria o consolado») e 49 («e por mais que galopem / nunca chegarão a pisar a terra a partir da qual / já não tenham de superar mais provas, / onde possam repousar por fim / na imanência da sua condição, / dormindo de pé com as quatro patas / ancoradas ao fundo do solo que lhes pertence»). E se O vale da estranheza é, aparentemente, um livro de fragmentos (para Walter Benjamin o fragmento destapa a morte), Essas alegrias violentas já tinham aberto o caminho. 

Todavia, o caminho não foi integralmente aproveitado e, afinal, os fragmentos não são fragmentos - mas pequenos poemas em prosa, como em Baudelaire. CC, em O vale da estranheza, retoma temas que vêm de trás: o tema da máscara, da persona, da marioneta (por onde anda o Monsieur Teste de Valéry, o Woyzeck de Büchner), o tema da doença capaz de alterar a percepção do corpo e do mundo. Enfim, estratégias outras para o confronto entre o eu e o tu (o consolador e o consolado), com ecos de Rimbaud: «Je suis un Autre».

29.4.20

No silêncio da luz


No silêncio da luz, a orelha tem que estar atenta a qualquer questão. Sabendo de antemão que cada questão transporta uma nova questão. Como uma teia. Essa teia está no caminho que o pensamento percorre. E acaricia-nos o rosto.


13.3.20

Diante do vírus

Diante do coronavírus há que evitar o temor do temor, o medo do medo - como escreveu, em finais de oitocentos, Schopenhauer a propósito do medo, do temor. Este é o axioma. Um axioma que, todavia, implica múltiplas inferências, umas mais adequadas do que outras. 

A primeira é a do fim do mundo (não confundir com o fim da civilização ocidental) - um fim do mundo que vem a ser propalado por causa de sucessivos desastres ecológicos.  Estamos, aqui, na área do biopoder: há acordos que são respeitados parcialmente e/ou pura e simplesmente desrespeitados pelos governos democráticos e ditatoriais, com consequências gravosas e sem retorno, ou quase, para o ecossistema. Esta inferência dirige-se ao capitalismo. Que, como se sabe, é o único sistema (económico-social) que reconhece os seus erros ao mesmo tempo que reconhece a im-possibilidade de os corrigir, como sublinha de forma certeira Badiou no recente Trump. Eis o temor, o medo.

Consequência desta lógica que sustenta o capitalismo, temos a segunda inferência. A globalização, por cujos canais o capitalismo erra, e que implica a queda lenta e inexorável da civilização ocidental - e a ascensão do multiculturalismo. Daí, aliás, a questão que os curadores dos museus europeus e norte-americanos debatem: como integrar no espaço dos museus ocidentais culturas outrora dominadas e/ou colonizadas ou sexualidades outrora reprimidas, etc. Daí, ainda, a questão dos migrantes, sem dúvida uma questão humanitária, consequência de uma política ocidental em que a UE não existe nas suas tergiversações. Daí, entretanto, a questão do fim do estado social - e do fim da democracia, se é que a há.

Não bastasse este pano de fundo, temos agora, à escala global, a epidemia (ou pandemia) do coronavírus. Com consequências para a saúde e com consequências para o capitalismo. Por outras palavras: dirigida à vida (que é sempre vidamorte) e dirigida ao capital. E, diante da qual, resta, aparentemente, declarar o estado de excepção, que Schmitt teorizou antes da II guerra mundial, aplicando-a na república de Weimar, e a reposição de fronteiras (fronteira é um conceito chave na obra Ernst Jünger, em particular Passagem da linha, que ele estendeu da I guerra mundial (em que lutou, sendo várias vezes ferido) à II guerra mundial, e dedicado a Heidegger, o qual analisa detalhadamente o conceito de linha). Contra o estado de excepção e a reposição de fronteiras está Agamben (ver, também, Sulla fine del mondo, novembro 2019, e Contagio, março 2020), a quem Jean-Luc Nancy responde com um argumento que é uma falácia ad hominem, donde uma não-resposta, como o mostra claramente o último parágrafo do texto.

Que pensar, então, diante do coronavírus? Em precaver-se, evidentemente. Mas, por outro lado, a defesa da vida, da vidamorte, implica sempre o poder do soberano (seja a OMS, sejam os governos democráticos, sejam os governos ditatoriais). Ora, este poder do soberano, o poder da vida, e não o poder da morte (como nas monarquias absolutas, na pena de morte, etc.), é o biopoder, tal como foi pensado por Foucault. Ora, é esse poder do soberano que mete medo. E que nos leva a questionar a democracia, se é que a há.

24.7.16

Algumas notas sobre o terror(ismo), hoje

1. Nice, Munique. Num como no outro caso logo se ligou o terror ao Daesh, ao autoproclamado Estado Islâmico (EI). Todavia, o que se veio a descobrir foi que se tratava de "lobos solitários" com códigos de conduta próprios e individuais. Porém, a forma como a comunicação social tratou estes casos ampliou o terror e, num primeiro momento, deturpou os factos (no caso de Nice, o próprio poder político francês foi cúmplice dessa deturpação). O EI agradece.

2. O que une estes dois "lobos solitários"? Algo confuso, nebuloso, em torno de uma ideologia da extrema-direita, ou com ecos disso, xenófoba, nacionalista, em busca de auto-afirmação mimética. Algo que apela a ser visto, isto é, que apela à mediatização (e as cadeias de televisão servem o prato a quente). Algo como a candidatura de Trump made in USA - só que suicidária, nestes dois casos, como, aliás, nos casos made in USA, onde o racismo vem cada vez mais à tona.

3. O que não é novidade desde finais do século XIX e princípios do século XX. Aí, todavia, havia marcas ideológicas evidentes. Agora, o confuso, o nebuloso são apenas um indicador de um eu perdido na multidão, (auto-)rejeitado, de um eu desagregado e desagregador, de um eu sacrificial - um eu à procura do próprio eu, finalmente da sua auto-justificação, uma auto-justificação mimética assumida. O que é totalmente diverso da estratégia do EI. Neste, a estratégia é global, narcótica. Nos outros, local, narcísica. O terror, contudo, é o denominador comum.

12.7.16

Amadeo: mais fases do que a lua




Este é um dos trabalhos do último período de Amadeo, Zinc (1917), presente na exposição do Grand Palais. Uma exposição mais do que merecida, sem dúvida, depois de nos anos 1910 ter feito de Paris o seu quartel-general (como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita) - com algumas idas a Manhufe, por onde fica durante a guerra mundial de 1914-1918, morrendo precisamente em 1918, vítima da pneumónica. E, além disso, uma exposição bem montada, apesar de lhe faltarem contextos (há apenas dois: um Modigliani e um Brancusi, o que é manifestamente pouco se se comparar, por exemplo, com as actuais exposições de Rousseau no Orsay ou de Klee no Pompidou). Adiante.

Qual a matriz ou as matrizes da obra pictórica de Amadeo? Ele próprio diz que é impressionista, cubista, futurista, abstraccionista. O que até é verdade - uma meia verdade. Mais tarde, será marcadamente expressionista. Mas, também ele próprio diz que tem mais fases do que a lua. E talvez esta afirmação contextualize uma obra pictórica feita de rupturas. Por outras palavras: não há um fio condutor na obra pictórica de Amadeo. Esta vive de explosões. E Amadeo tem, de facto, mais fases do que a lua.

Acerca dos XX desenhos, uma ideia notável de marketing, e das ilustrações para A lenda de São Julião o hospitaleiro, de Flaubert, falou-se da influência da tapeçaria e das estampas persas - como se podia falar da influência do simbolismo, da Art nouveau. É verdade. Como é verdade que estes trabalhos vivem de dois pólos: o alto, representado pelo falcão, e o baixo, representado por coelhos que mais parecem peixes - como se a obra pictórica de Amadeo fosse uma cosmogonia. Depois, há o castelo - donde partem cavalos, galgos, cavaleiros, damas. Eis um neo-medievalismo. Eis Manhufe a falar. Como nalgumas paisagens. Como nalgumas máscaras.

Mas, há outras marcas evidentes na obra de Amadeo. Para além de Modigliani e Brancusi, Rousseau, os discos órficos de Delaunay. E, mais tarde, no período da guerra, uma mecanomorfismo aparentado com Léger. E, sempre, a pintura dos primitivos (séculos XIV, XV).

Cosmopolita e terra-tenente, Amadeo faz sínteses. Uma delas é precisamente esta. As outras são visíveis na sua obra pictórica. Ora cromaticamente exaltante. Ora cromaticamente trágica. Ora Meio-Dia, excessivamente solar. Ora Meia-Noite, excessivamente lunar. Como em Hölderlin e Nietzsche, onde Meio-Dia e Meia-Noite significam o a-vir - a ruptura com o niilismo decadentista de finais de oitocentos.


31.1.16

A-vir

«Vivemos com os mortos», escreve Jean-Luc Nancy nas páginas finais de L'expérience de la liberté (Galilée, Paris, 1988). Ora, o que Nancy quer dizer é isto: a Shoah, mas também o Gulag, o nazismo, mas também o estalinismo e os fascismos, indicam o terror da liberdade, indicam a liberdade como terror, indicam a liberdade do mal, a «banalidade do mal» no dito de Hannah Arendt. Daí, no dito de Adorno, ser impossível escrever depois de Auschwitz. O que é que este dito de Adorno quer dizer? Depois de Auschwitz, não há testemunho. É impossível testemunhar Auschwitz. Auschwitz é a liberdade do mal que corrói a própria liberdade e, assim, o infinito finito da existência, da ek-sistência. Auschwitz é a liberdade do mal que destrói a própria liberdade e, ao mesmo tempo, o infinito finito da ek-sistência. Mais radicalmente, e no meu dizer: Auschwitz apaga a ek-sistência. E ao apagar a ek-sistência, apaga a  abertura ao aí do ser, a abertura ao Da do sein (Heidegger). Assim, apagar a abertura do ser-aí é apagar o espanto perante o aberto (note-se que não há espanto na liberdade como terror, há, isso sim, cinzas). Assim, apagar a abertura do ser-aí é o retirar-se do ser, a sua ocultação.

Por outro lado, o enunciado «Vivemos com os mortos» subtrai-se a qualquer subjectividade. Não sou eu, nem tu, nem ele, nem vós, nem eles que vivemos com os mortos. Somos nós. E, sendo nós, é de uma comunidade que se trata. É uma comunidade-a-vir. É uma democracia-a-vir. É uma comunidade-a-vir, uma democracia-a-vir onde o a-vir é o ainda-não-do-já, nas palavras de Heidegger sobre o ser, que são aqui, contudo, as palavras sobre a liberdade. Porque a liberdade é um a-vir, é uma dádiva, é uma oferenda. A liberdade dá-se na ek-sistência. Por isso mesmo, a ek-sistência é um infinito finito.

26.1.16

A paisagem nas artes visuais de oitocentos em diante

Para o romantismo, a paisagem evoca estados de alma (a chuva é a metáfora das lágrimas, o vento a metáfora do desencanto e/ou do desespero, o cipreste a metáfora da morte, etc.). A este antropomorfismo não é alheio o conceito de sublime na terceira crítica de Kant.


Caminhante sobre o mar de névoa (1818), de Friedrich, até pelo próprio título (por um lado, o sintagma caminhante ou viajante, como depois no Zaratustra de Nietzsche, o caminhante ou o viajante como mago romântico, como profeta romântico, por outro lado o sintagma mar de névoa enquanto espelho baço, espelho da solidão, espelho abissal onde o eu é absorvido), é um exemplo entre muitos.

Curiosamente, a resposta, se é que a há, se é que não é uma nova questão, do realismo de Courbet  é esta:


Le bord de mer à Palavas (1854) é a exaltação da paisagem, e não a sua contemplação, é a exaltação da natureza. Aliás, Courbet, no caso de A vaga (1869),


usa eventualmente a fotografia - neste caso uma fotografia de Gustave Le Gray, A grande vaga, Sète (1857). 


Ora, o uso da fotografia por Courbet, em alguns dos seus trabalhos, é outro ponto de afastamento em relação ao romantismo.

O final de oitocentos, aquando das várias exposições universais, assiste a um outro fenómeno: os panoramas. 



Mas, neste caso, o tema tanto pode ser a paisagem como a vida urbana, cenas de batalhas, etc. O que os panoramas fazem, todavia, é colocar o espectador no centro da obra. Dan Graham, por volta de 1980, há-de desconstruir este paradigma.


O que Dan Graham faz é, pois, o contrário dos panoramas. A obra de arte não tem um centro, não tem um interior. A obra de arte é um interior/exterior onde o papel do espectador é observar/ser observado. Por outras palavras: a obra de arte, neste caso a instalação, tem não só uma força centrífuga como uma força centrípeta.

Entretanto, por altura dos panoramas, e indo marcar todas as vanguardas artísticas, a par de van Gogh e Gauguin, surge Cézanne, onde a paisagem é pura abstracção. Aliás, já o impressionismo, com o seu lema «d'après nature», em particular Monet, caso das séries dos nenúfares e das medas de feno, tinha ensaiado a abstracção, fundamentalmente ao nível cromático.



Trata-se de uma paisagem ou da exploração da cor, melhor, da exploração da mancha? É esta a questão que levanta Mont Sainte-Victoire (1902-1906) e outras obras de Cézanne. E a resposta, como é evidente, é a segunda hipótese.

Com as vanguardas artísticas de inícios de 1900, a paisagem deixa de ter lugar nas artes visuais. A ponto de Mondrian, que começou justamente por trabalhar a paisagem, no período da abstracção recusar o verde... Contudo, na fase intermédia entre a paisagem e a abstracção, há um diálogo que se pode estabelecer entre as paisagens de Mondrian e as paisagens doutro homem das vanguardas: Amadeo de Souza-Cardoso.

E, antes do regresso à paisagem de Dan Graham e outros, há nos anos 1960, com Richard Long, um dos nomes da land art, um regresso aparente à paisagem.


Todavia, A Line Made by Walking (1967) nada tem a ver com a paisagem. É, pelo contrário, como depois em Alberto Carneiro, a apropriação da paisagem como objecto cultural marcado pelo corpo.

15.1.16

Um caminhar pelas (minhas) livrarias do Porto (1966-2000)


[Livraria Chardron, depois Lello & Irmão, Porto, fotografia de Aurélio Paz dos Reis (1906)]

Quando comecei a ir à Lello (rua das Carmelitas), há perto de cinquenta anos, os dois lados em baixo tinham balcões corridos, interrompidos no meio para passagem. No da direita ou ao fundo, junto às escadas, onde havia uma escrivaninha de tampo de correr, estava o senhor Domingos - da geração dos últimos livreiros do Porto, dos quais dou conta implícita na referência às restantes livrarias-editoras. Na Lello havia tertúlias. E as pessoas que iam às tertúlias da Lello, iam também às tertúlias da Sousa & Almeida, que era fundamentalmente um alfarrabista e editor na rua da Fábrica, do outro lado do café Estrela d' Ouro. Depois, a Lello começou a decair. Como decaiu a Tavares Martins, em frente aos Lóios - outro lugar de tertúlias, neste caso dos apaniguados do Estado Novo, regra geral professores universitários de Filosofia e História, caso de António Cruz, e onde aparecia o cineasta do regime António Lopes Ribeiro. Esta decadência aconteceu pelos anos 1980-1990. Entretanto, a Figueirinhas, na Praça da Liberdade, à beira da cervejaria Sá Reis e das confeitarias Atheneia e Arcádia, fechou. Pouco mais tarde, fechou a Século (com o prestável senhor Brandão), na rua de Sá da Bandeira. Entretanto, a Latina, na rua de Santa Catarina, foi passada. E a própria Leitura, que editou alguns livros, poucos, é certo, descaracterizou-se com a saída de Fernando Fernandes, e acabou por ser passada. Antes disto, a Internacional (destaque para o senhor Reis), depois Bertrand, na rua 31 de Janeiro, descaracterizava-se. Aliás, quer a Chardron, depois Lello & Irmão, a Figueirinhas, a Tavares Martins, a Latina e, obviamente, a Bertrand foram, ainda, editoras. Restam, ainda, como livreiros desse tempo, o Nuno Canavez da Académica, um alfarrabista de peso, onde ia Mário Soares aquando das suas deslocações ao Porto, e, muito mais novo, o filho do Manuel Ferreira, outro alfarrabista de peso, o Herculano Ferreira, que herdou o saber e a prática do pai. Agora, tirando estes dois e uns poucos mais, muito poucos, aliás, e bastante irregulares no depósito livreiro, resta comprar on line nalgumas páginas de alfarrabistas, nas amazon, nas fnac, ou directamente às editoras.

Para quem estiver interessado no tema, há este livro: Carlos Porto, Livrarias & livreiros. 1945-1994. Histórias portuenses, Livraria Leitura, Porto, 1994, apesar de bastante focado na Divulgação, mais tarde Leitura.