24.4.26

O princípio da incerteza

 





Dizem: atravessa este livro a melancolia - ao contrário do livro anterior, Divisão da alegria (2022). Todavia, a melancolia é a suspensão do gesto, caso das cantigas de amigo dos cancioneiros medievais. E, aqui, em Postes de luz para cães vadios (2026), suspensão do gesto é algo que não há. Diz: "estou em guerra comigo" (p. 11). E acrescenta: "vim para dizer: / não preparei o meu coração para a guerra." (p. 13). Eis a confissão de um ser cindido - de uma cesura. Só que essa cesura perturba a poesia e leva-a para o terreno da prosa, para uma discursividade centrada no sentir de um eu (marca do pós-modernismo). Pelo que, e di-lo com todas as letras, "Após as ruínas do capitalismo / voltaremos à imaginação" (p. 83). 

Todavia, apesar da raiva que atravessa Postes de luz para cães vadios, essa luz, aqui agreste, vem de trás, ainda que mais ténue: falo de Divisão da alegria. E o tema da cisão do eu, o mesmo é dizer divisão da alegria, mostra como contaminou, depois, tudo à sua volta, caso do segundo livro. Todavia, há neste livro inicial dois poemas de que gosto particularmente: Namorar em língua camoniana (pp. 80-81) e Uma folha arrancada do caderno (pp. 84-85). Neste último pode-se ler: 'respiro como se atirasse pedras a um destino ferido'. E lá está a cesura que se acentua até ao limite em Postes de luz para cães vadios, que muito bem podia ser postes vadios para cães de luz. Aliás, este jogo vai de encontro a um verso fulgurante: 'a noite conduz-me os olhos como um maluco' (p. 110). Verso este que se encontra com um outro de 'Cuidar de búfalos': 'a água está sempre nua / está sempre pronta' (p. 108). Ora, este encontro entre nudez (nua) e dar-se (pronta) é, afinal, o encontro da poesia consigo mesma. Daí, neste livro inicial, a prosa, isto é, a discursividade em torno do sentir do eu, não ter lugar. Porque, aqui, o eu é um tanto ou quanto mero fingimento...


4.4.26

Angelica Kauffman, Portrait of Emma, Lady Hamilton, as Muse of Comedy, 1791

 

O que me inquieta nesta pintura de Kauffman? O que me levou a escolhê-la e não às outras aqui presentes? Que inquietude vai da tela até mim e de mim à tela? O que evidencia esse movimento circular - melhor, essa tensão? O fundo da tela é um reposteiro (uma cortina de cena?) em tons de verde escuro, um verde musgo, e de castanhos - que Emma afasta, como se fosse o princípio de algo. O quê? Da área castanha escura do reposteiro surge, irrompendo aí de uma área cromaticamente oposta, castanha clara, uma máscara grega (talvez greco-latina): a máscara da musa da comédia. E, de novo, a pintura cria um pólo de tensão entre a máscara e o rosto da musa, como se Emma revelasse, por fim, o seu rosto. Mas, Emma revela mais. Num jogo erótico evidente, que o branco da veste acentua, sobressaem as coxas e o peito (que um cinto, tão castanho quanto o castanho do reposteiro e o da máscara, acentua). O sexo, esse, é encoberto por uma écharpe castanha clara - que vai até ao peito, caindo pelas costas até à coxa em primeiro plano. Reposteiro (ou boca de cena?) e écharpe são minuciosamente trabalhadas, encontrando-se na linha que atravessa o sexo - e que as pregas da veste velam e desvelam. E que o rosto absorto, diria mesmo suspenso pelo desejo, desvenda no esgar da máscara, uma máscara adornada pelos louros da conquista...

2.4.26

Da diferença, esta

Qual a linha de demarcação, se é que existe, entre a Shoah e a escravatura, o esclavagismo? A Shoah tem uma data, 1939-1945, a II Guerra Mundial - ainda que os campos de extermínio sejam de 1940-41. O esclavagismo, pelo menos o esclavagismo lusíada, vai de quatrocentos a oitocentos - ainda que, de facto, se prolongue até aos dias de hoje (veja-se como são tratados os migrantes). A Shoah mata o pouco que ainda há de vida, o que resta da vida - tem o inumano como programa. O esclavagismo explora como programa. Ou seja, a linha de demarcação está entre o inumano e o desumano. Entre considerar o humano como não humano e o considerar o humano como algo que pode ser explorado e comercializado (e não só em termos de mão-de-obra), isto é, ser fonte de lucro. Assim, há uma linha que os separa: de um lado, o extermínio; do outro, o racismo. De um lado, o Outro como im-possível. Do outro lado, o Outro como mercadoria.