O que me inquieta nesta pintura de Kauffman? O que me levou a
escolhê-la e não às outras aqui presentes? Que inquietude vai da tela
até mim e de mim à tela? O que evidencia esse movimento circular - melhor, essa
tensão? O fundo da tela é um reposteiro (uma cortina de cena?) em tons de verde
escuro, um verde musgo, e de castanhos - que Emma afasta, como se fosse o
princípio de algo. O quê? Da área castanha escura do reposteiro surge,
irrompendo aí de uma área cromaticamente oposta, castanha clara, uma máscara
grega (talvez greco-latina): a máscara da musa da comédia. E, de novo, a
pintura cria um pólo de tensão entre a máscara e o rosto da musa, como se Emma
revelasse, por fim, o seu rosto. Mas, Emma revela mais. Num jogo erótico
evidente, que o branco da veste acentua, sobressaem as coxas e o peito (que um
cinto, tão castanho quanto o castanho do reposteiro e o da máscara, acentua). O
sexo, esse, é encoberto por uma écharpe castanha clara - que
vai até ao peito, caindo pelas costas até à coxa em primeiro plano. Reposteiro
(ou boca de cena?) e écharpe são minuciosamente trabalhadas,
encontrando-se na linha que atravessa o sexo - e que as pregas da veste velam e
desvelam. E que o rosto absorto, diria mesmo suspenso pelo desejo, desvenda no esgar da máscara, uma máscara adornada pelos
louros da conquista...