Dizem: atravessa este livro a melancolia - ao contrário do livro anterior, Divisão da alegria (2022). Todavia, a melancolia é a suspensão do gesto, caso das cantigas de amigo dos cancioneiros medievais. E, aqui, em Postes de luz para cães vadios (2026), suspensão do gesto é algo que não há. Diz: "estou em guerra comigo" (p. 11). E acrescenta: "vim para dizer: / não preparei o meu coração para a guerra." (p. 13). Eis a confissão de um ser cindido - de uma cesura. Só que essa cesura perturba a poesia e leva-a para o terreno da prosa, para uma discursividade centrada no sentir de um eu (marca do pós-modernismo). Pelo que, e di-lo com todas as letras, "Após as ruínas do capitalismo / voltaremos à imaginação" (p. 83).
Todavia, apesar da raiva que atravessa Postes de luz para cães vadios, essa luz, aqui agreste, vem de trás, ainda que mais ténue: falo de Divisão da alegria. E o tema da cisão do eu, o mesmo é dizer divisão da alegria, mostra como contaminou, depois, tudo à sua volta, caso do segundo livro. Todavia, há neste livro inicial dois poemas de que gosto particularmente: Namorar em língua camoniana (pp. 80-81) e Uma folha arrancada do caderno (pp. 84-85). Neste último pode-se ler: 'respiro como se atirasse pedras a um destino ferido'. E lá está a cesura que se acentua até ao limite em Postes de luz para cães vadios, que muito bem podia ser postes vadios para cães de luz. Aliás, este jogo vai de encontro a um verso fulgurante: 'a noite conduz-me os olhos como um maluco' (p. 110). Verso este que se encontra com um outro de 'Cuidar de búfalos': 'a água está sempre nua / está sempre pronta' (p. 108). Ora, este encontro entre nudez (nua) e dar-se (pronta) é, afinal, o encontro da poesia consigo mesmo. Daí, neste livro inicial, a prosa, isto é, a discursividade em torno do sentir do eu, não ter lugar. Porque, aqui, o eu é um tanto ou quanto mero fingimento...