16.5.26

Marcas e sinais

 




Há na poesia de Tatiana Faia quatro planos marcantes: 

1. O encontro objectivo com Jorge de Sena (em particular Metamorfoses, 1963, e 40 anos de servidão, 1978) e com Ruy Belo (é Tatiana Faia quem sublinha um poema de Transporte no tempo,  1973 - mas, Toda a terra, 1976, ou as duas edições de Despeço-me da terra da alegria, 1977 e 1978, estão também na poesia de Tatiana Faia com o restante do corpo poético de Ruy Belo), para além de outros nomes explícita e/ou implicitamente convocados (Herberto Helder, António José Forte, João Miguel Fernandes Jorge, etc.), recuando, assim, à geração dos anos 1940 e à dos anos 1960 e dos anos 1970, ainda que sem perder de vista os tempos de hoje, as suas marcas e sinais. 

2. O pós-modernismo sublinhou, a partir de um texto seminal de Roland Barthes, a "morte do autor" - isto depois da "morte de Deus" (Nietzsche) e da morte das grandes narrativas (Marx, Freud). E essa morte levou a um centrar a palavra poética num eu-descritivo de conflitos existenciais, da vivência do quotidiano, de tudo o que girava à sua volta. Um eu frágil, todavia - e um pensamento frágil, no dizer de Gianni Vattimo. Tal não acontece na poética de Tatiana Faia. Aí, o vocativo que impera é o tu, máscara evidente do eu. E vai-se desdobrando por vários eu/ele que o tu convoca. Nessas figuras é que circulam os conflitos existenciais, a vivência do quotidiano.

3. Há uma aparente discursividade nesta poesia, a saber: a narratividade sofre torções que a subtraem a esse mesmo plano narrativo e a transportam para o plano da poesia. 

4. Tudo somado, a poesia de Tatiana Faia hesita entre a pós-modernidade e a modernidade, ancorando-se indubitavelmente nesta.

Adenda: 

De um quarto em atenas (2018) destaco cinco visões do paraíso terrestre (pp. 30-39), em particular 2. (pp. 30-31) e Retorno, 2016 (pp. 42-45) - isto para além de uns quantos versos fulgurantes. 

De recurso e pobreza (2025) destaco flores caras (pp. 56-59), o belíssimo leonardo e os materiais (pp. 76-82), anunciação, filippo lippi, ca. 1453 (pp. 101-104) e os dois anjos na rue racine (pp. 88-93). 

Em termos gerais, considero o livro de 2025 bastante mais conseguido, com uma marcada voz própria, de que o anterior, o de 2018,  foi o laboratório.