Gerhard Richter, Ema, 1966.
Porque escolhi esta fotografia de Richter? Há aqui uma mulher, Ema, na altura sua mulher, que desce nua uma escada. A fotografia está, aparentemente, desfocada. Melhor: percorre-a uma espécie de nevoeiro que des-figura quer a mulher quer o espaço que a rodeia. Todavia, o punctum da fotografia, conceito usado por Barthes em La chambre claire, aquilo que nos prende de imediato a atenção, é o triângulo que cobre o sexo, deslizando, depois, pelo corpo até à mancha negra no cabelo e, daí, ao topo da escada, espécie de quadr(ad)o negro, configurando mulher e espaço envolvente (degraus, corrimão, paredes, etc.).
Já em 1912, Marcel Duchamp pinta um Nu, descendo uma escada, nº 2, este, súmula de des-figuração e movimento, que esboços de círculos embrionários acentuam. Diga-se, desde já, que Richter dava particular atenção à obra de Duchamp, incluso os ready-made.
Entretanto, surgiu-me ocasionalmente esta fotografia de Thomas Ruff:
Talvez de finais de 1990, princípios de 2000, deve pertencer à série Nus. Todavia, é de uma figura fugidia que se trata, sugada pela parede que reflete a sua sombra, parte do rosto visível assemelhando-se a uma máscara. Por isso, nada a prende à Ema de Richter. Esta é uma figura fixa. Ema é uma figura movente. Assim, esta fotografia de Ruff pode prender-se, eventualmente, com um trabalho seminal de Rauschenberg, em que este quase apaga um desenho de de Kooning, um dos nomes do expressionismo abstrato, com um título significativo: Erased de Kooning Drawing (1953):
Daí ter-se dito que Rauschenberg tinha aberto uma via neo-DADA conceptual, sendo que DADA foi o movimento a que Duchamp pertenceu. Outros, caso de Harold Rosenberg, apontam para uma herança da action painting, ou seja, de alguns nomes do expressionismo abstrato (caso de Pollock, de Kooning, por exemplo).
Voltando a Richter. Outras questões andam em torno da sua obra. Com educação escolar na RDA, onde fez fundamentalmente pintura mural segundo as premissas do realismo socialista, pouco antes da edificação do muro vai para a RFA. Já antes tinha começado a fazer o Atlas: uma coleção de fotografias tiradas dos mais variados media - que vai, mais tarde, continuando a crescer, já sem censura, e onde escolhe matéria para determinados ciclos de trabalhos sobre fotografia ou quadros abstratos, onde predomina o amarelo-ouro, o vermelho, o azul e, por vezes, o verde. Todavia, há no Atlas quatro fotografias clandestinas, tiradas em Auschwitz-Birkenau por Sonderkommandos, de mulheres gazeadas e atiradas para valas comuns para não haver qualquer rasto. Depois, fotografias da destruição de Dresden, onde tinha vivido, pelos aliados em 1944. Como viver com estas memórias? E como as transportar para o seu trabalho? Eis uma questão que, entre outras, fica por agora em suspenso.