9.10.26

Ataraxia

'Pára-me de repente o pensamento' - como pára o cavalo diante do abismo, para depois se lançar naquele bréu, bem escuro, imperscrutável. Este belíssimo poema de Ângelo de Lima, publicado em 1915 em Orpheu, a revista do primeiro modernismo, e que traz ecos da poética de Hölderlin, que seguramente não conhecia, evoca um outro poema, este de Mário Sá-Carneiro, de 1914, publicado no livro Dispersão e, antes, em Orpheu: 'Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim'. Para acrescentar: 'Perdi a morte e a vida, / E, louco, não enlouqueço'. O termo que os gregos tinham para estes estados era ataraxia.