20.9.26

Habitar a terra: um século sob o signo do efémero, mesmo na arte

1.Viver, isto é, habitar a terra, é percorrer a precariedade dos trilhos que, numa espécie de simbiose, expõem também a nossa precariedade. Todavia, os animais percorrem os trilhos com total ignorância dessa precariedade. Porquê? Porque tudo lhes é absoluto. Não assim para nós. Vivemos (n)o efémero.

2. Aliás, quem em meados de oitocentos falou do efémero, do transitório e do fugitivo, aqui a propósito da beleza, foi Baudelaire em O pintor da vida moderna, de seu nome Constantin Guys e, estranhamente, não Manet ou Courbet. Aliás, Baudelaire, enquanto Hausmann rasgava Paris a régua e esquadro, e um cisne, di-lo num soneto, debicava por entre os destroços da velha Paris, escreve: em cada época devemo-nos ater à sua beleza, por tão estranha e mínima que seja.

3. Um século mais tarde, no rescaldo da II Guerra Mundial (1939-45), e com a influência de Jean Fautrier e de Lucio Fontana, eis que Ryman, Blanky Palermo, Piero Manzoni fazem as suas pinturas brancas - eventual acentuar do depois da guerra e do depois do holocausto, uma espécie de dia seguinte, apesar de amargurado. Estávamos em meados de 1950, princípios de 1960. E sob o signo do efémero.

4. Ora, é sob este signo, e nestas mesmas datas, nos anos 1950, que Beckett escreve À espera de Godot, e Ionesco, o homem do teatro do absurdo,  escreve A cantora careca.

5. Vinte anos mais tarde surgem em Itália as Brigadas Vermelhas. Dez anos antes tinha surgido na RFA o grupo Baader-Meinhof, do qual Gerhard Richter, vindo da RDA para a RFA, e que aqui começa a pintar nos inícios dos anos sessenta, vai trabalhar as fotografias da morte de Ulrike Meinhof, do seu companheiro, Andreas Baader, e de outro membro, como fazia, aliás, com outras fotografias do seu Atlas, e expõe esses trabalhos - sem qualquer vestígio ideológico, apenas na sua materialidade. Como eventualmente aconteceu com as pinturas brancas.