13.1.15

O alfaiate


O alfaiate, Il Tagliapanni, 1565-1570, de Giovanni Battista Moroni, pertença da National Gallery, Londres, é uma daquelas obras que prende a atenção. Há, aqui, todas as regras do retrato, tal como concebido até setecentos. A inclinação da cabeça e o olhar atravessam a pintura numa diagonal que o vértice de cores do fundo da tela acentua: um cinzento carregado, quase negro, cria o lado de um vértice que ocupa o lado direito, onde um cinzento mais claro vai gradualmente escurecendo de cima para baixo, sem atingir o tom de penumbra do lado esquerdo. Repare-se, ainda, como a cabeça da figura está no lado mais claro, enquanto o corpo, também na mesma diagonal criada pela cabeça e pelo olhar, como que irrompe do lado mais escuro - veja-se a mancha de sombra no ombro do lado direito, que vai descendo pela manga. Depois, as mãos. Como desde Caravaggio a Courbet, uma é passiva e a outra activa. A mão do lado direito, ainda que segurando o tecido, o negro do tecido, quase parece em abandono. Pelo contrário, a outra mão, contraída na tesoura aberta, indica que toda a pintura é um gesto em suspenso na outra diagonal que a mesa instaura - a diagonal que, por assim dizer, fecha a diagonal instituída pela cabeça e pelo olhar, a diagonal que com a diagonal do braço direito cria um centro. Tudo é, assim, interior, interior à pintura: a mesa de trabalho, as mãos, o olhar. Ainda que este nos seja dirigido...

9.1.15

O pintassilgo


O pintassilgo, de Carel Fabritius (1622-1654), datado do último ano da vida do pintor, e pertença do Mauritshuis, Holanda, é a única obra que restou de uma explosão no atelier do pintor, em Delft, e que o matou - como o conta Donna Tartt no romance homónimo. 

Todavia, não é isto o que me interessa. Antes de mais, na vanitas, na natureza-morta, um género de pintura em que se pode inserir O pintassilgo, o tema da reclusão é inusual. Porque é disso mesmo que se trata. Uma ave acorrentada - cuja figura melancólica do voo está adiada para sempre. Ou seja: ainda que vivo, o pintassilgo é, de facto, uma natureza-morta. O pintassilgo é um morto-vivo - como a enorme mancha de sombra na parede confirma, a ponto de confundir, melhor, identificar a ave e o poleiro, a ave e o cativeiro.

Não perdendo a pintura de vista (caso da postura da cabeça da ave, como nos retratos e auto-retratos de figuras humanas até finais de setecentos; caso das manchas de óleo, algumas feitas com espátula, bem marcadas nas asas, sinal da tal figura melancólica do voo adiado; caso da argola e da corrente que  prende o pintassilgo na pata, num plano simétrico ao da inclinação da figura da ave; caso das grades do poleiro, no mesmo tom, ainda que mais vivo, do corpo da ave; caso do cinzento neutro, um cinzento de morte, do poleiro, e que, por isso mesmo, se impõe ao olhar do espectador em contraponto com um bebedouro esfumado, difuso, como se a ave estivesse morta, melhor, como se a ave fosse um animal empalhado; caso da figura da ave, como que querendo sair do cativeiro e, ao mesmo tempo, resignada à sua reclusão; caso do fundo da pintura, uma espécie de parede bolorenta), creio que O pintassilgo é a imagem deslumbrante e terrífica do homem e da sua historicidade, a que nos habita e a que nos habitou. Ou, se preferirmos, é nos dias de hoje, como o terá sido na altura num plano político diverso (a assinatura do pintor parece dizer que se trata de um auto-retrato), é nos dias de hoje, dizia, a imagem deslumbrante e terrífica da cidadania e da democracia.

29.9.14

Depois da queda

Com o fim da guerra fria, que foi a queda do muro de Berlim em 1989, começou o século XXI, como já o escrevi algures - tal como o século XX começou em 1914, início da primeira guerra mundial (no que estou acompanhado por Vitorino Nemésio, na sua tese de doutoramento sobra a mocidade de Herculano, de 1933, ou por Alain Badiou, por exemplo). E com a queda do muro de Berlim começou-se a pensar a "Europa", que, aliás, em plena guerra fria Jean Monet tinha pensado.

Em contrapartida, o século XVIII, pela voz de Kant, tinha dito uma coisa simples: só a força das armas implica a paz. Foi, aliás, a força das armas que traçou a "Europa" reinante e as suas colónias até 1918, fim da primeira guerra mundial.

Todavia, o fim da guerra fria implicava forçosamente o renascimento dos vários nacionalismos europeus, com as suas lutas tribais. E, além disso, para lá da "Europa", a potência unipolar emergente, os EUA, ao quererem, pretensamente, impôr o modelo democrático a regimes ditatoriais, muitos alicerçados na religião, armando aliados de ocasião que se tornariam a breve trecho inimigos (o que já vinha dos idos da guerra fria), abriu a porta a fenómenos como o islamismo extremista.

Não fora isto, um além Europa a reconstruir um novo mapa geopolítico, a "Europa" pretensamente unida, também a reconstruir um novo mapa geopolítico, rebentou com o modelo de democracia representativa nos países da periferia - caso de Portugal, hipotecado desde oitocentos, e sonhando, por vezes, com a união ibérica, a ponto de algumas luminárias pensarem, até, invadir a Espanha, como conta Oliveira Martins no Portugal contemporâneo (1881).

Entretanto, renascida das cinzas do holocausto, a Alemanha tornou-se o fiel da balança na "Europa", isto é, uma vez reunificada, considerou-se o mentor "europeu". Conseguiu-o? E os EUA, conseguiram ser o mentor mundial?

18.9.14

Portugal contemporâneo


Portugal contemporâneo (1881) de Oliveira Martins completa, por assim dizer, a sua História de Portugal (1879) - indo de 1826-28, «a carta constitucional», a 1851-68, «a regeneração», passando respectivamente pelo «reinado de D. Miguel» (1828-32), pela «guerra civil» (1832-34), pela «anarquia liberal» (1834-39) e pelo «cartismo» (1839-51), tendo, aliás, sido considerado por Eça de Queirós o seu melhor livro.

Todavia, o que me interessa reter aqui são dois planos breves. Por um lado, a similitude com o que se passa hoje em dia no país, e nas relações do país com a "Europa". Por outro lado, o modo como Oliveira Martins faz o esboço das personagens - umas mais vagas e difusas, outras mais detalhadas e questionadas. Ora, justamente este último plano leva a que o II vol. seja, por vezes, mais empastelado do que o I (este mais próximo da História de Portugal, uma narrativa de heróis trágicos do destino português). Quanto ao primeiro plano, esta afirmação do II vol. ainda vale por si:

«Nenhum sistema político se presta mais à tirania e à burla do que o sistema aritmético do governo das maiorias».

Um outro plano importante é o breve estudo das ideias políticas de Herculano e das suas contradições internas: o conflito entre o individualismo de Herculano (um anarquismo individualista, como se lhe refere no I vol., mas um anarquismo individualista baseado na tradição da pátria) e o colectivo, a sociedade, com cujos valores (a prática, o utilitarismo, etc.) estava em rota de colisão.  É sintomático este texto de Herculano citado no II vol.:

«A história política é uma série de desconchavos, de torpezas, de inépcias, de incoerências, ligadas por um pensamento constante - o de se enriquecerem os chefes de partido [e os seus correligionários, digo eu]. Ideias, não se encontram em toda essa história (...). Hoje achá-los-eis progressistas, amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores: olhai, porém, com atenção e encontrá-los-eis sempre nulos.

Eis Herculano, o individualismo de Herculano, certeiro na altura, certeiro agora. Como certeiro na altura e certeiro agora, mas visto do lado do colectivo, da sociedade, este texto de Garrett, do Garrett das Viagens na minha terra (início da publicação em 1843, na Revista Universal Lisbonense):

«E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico?».

Daí, para o Garrett das Viagens, ser o mundo «uma vasta Barataria em que domina el-rei Sancho». O que Oliveira Martins corrige assim: 

«Portugal é uma vasta Barataria em que reina (liberalmente) el-rei Sancho».

Uma nota final: seria profícuo, mas isso fica para outra ocasião, aproximar o romantismo de Herculano do saudosismo de Pascoaes no vector da tradição da pátria (caso, em Pascoaes, da raça lusíada). E constatar, neste ponto, quanto Pascoaes é um discípulo de Herculano - e de Oliveira Martins (a lhaneza de carácter, por exemplo).

5.9.13

Golpes de estado, não

Desculpem lá o lugar comum: já não há paciência para ouvir os políticos, sejam do governo ou da oposição - e, aqui, incluo também comentadores, "analistas" e quejandos. Quando se devia debater ideias, somos confrontados com retórica e demagogia (neoliberal, comunista). Eu sei que, hoje em dia, a polis é aparentemente a "Europa". Mas, de facto, já não há polis alguma, é esse o drama da "Europa". Uma "Europa" sem projeto algum, refém dos países que ainda não se endividaram até ao ponto de não retorno. Eu sei que, para a "Europa", Grécia, Portugal e mais uns quantos "países" residuais não contam - servem apenas para que a "Europa", caso da Alemanha por exemplo, tenha mais lucros em função dos empréstimos, a tão famigerada emergência "nacional" de que o "governo" e os "analistas" "nacionais" tanto gostam de falar. Ficámos ou saímos do euro? Destruímos ou não destruímos o estado social? Destruímos ou não destruímos o serviço nacional de saúde? Destruímos ou não destruímos a escola pública? Sofremos todos (repito: todos) ou não sofremos todos (repito: todos) a austeridade? Somos todos solidários (no sentido de criar igualdade de oportunidades, de debelar injustiças flagrantes) ou não somos todos solidários? Esta é para mim, na esteira da social-democracia, do socialismo democrático, da democracia-cristã, a fronteira que se deve ter presente: a fronteira entre o sim e o não. Esta é a fronteira que a constituição do país estabelece. Suspendê-la é ilegítimo e ilegal. Que o ilegítimo está a ser posto em prática, sei-o, sabemo-lo todos (rasgam-se contratos com os mais indefesos). E o ilegal? Os neoliberais querem-no: governar para além da constituição. Que o inscrevam, então, num programa político e que vão a votos. Honrando a palavra dada - caso único na democracia do passado recente. Golpes de estado, caso da suspensão da constituição, não.

10.2.13

L'origine du monde de Courbet: uma polémica


L'origine du monde (1866) de Courbet reacendeu uma polémica. Jean-Jacques Fernier deparou-se com uma nova pintura de Courbet que, diz ele, é o rosto daquele torso.

Todavia, L'origine du monde, como, aliás, L'atelier du peintre (1854-55), é uma alegoria. Uma alegoria sem a mínima carga erótica. É apenas - e que apenas, daí o seu realismo (no sentido usual e no de uma corrente artística) notável - o sexo de um torso feminino. E, por isso mesmo, sem rosto. Aliás, se rosto tivesse, seria semelhante a La femme au perroquet (1866), que entronca na tradição do renascimento (a Vénus de Urbino, ca. 1538, de Ticiano, a Virgem adormecida, ca. 1510, de Giorgione), ou até, e talvez mais precisamente, a Femme nue couchée (1862).

É certo que o Musée d'Orsay já contrariou Fernier, dizendo, o que é a mais elementar verdade, que os contemporâneos de Courbet conheciam o quadro tal e qual está exposto neste museu, e de que é pertença. É ainda certo que já houve quem dissesse que a sintaxe do novo quadro, a tal cabeça complementar, nada tem a ver com L'origine du monde. Até onde irá a polémica?

Polémica à parte, L'origine du monde é da mesma altura da série Puits-Noirum local perto de Ornans e, como escreve Michael Fried em Courbet's realism (1992), dialogando com ela. E, já agora, não se esqueça o papel que a fotografia (de Gustave Le Gray e outros) teve na obra de Courbet.

Por isso, mais valia estar calado até que exames de raios-x, textura das cores e outros sejam feitos. Porque, verdade seja dita, L'origine du monde, a que conhecemos, é, entre outras obras, um começo da modernidade.

20.10.11

Houellebecq: uma escrita neo-pop

Li as quatrocentas e tal páginas de La carte et le territoire (Flammarion, Paris, 2010) em menos de dois dias. E gostei. Porquê? Não sabia bem. Todavia, ao ler Andy Warhol de Arthur C. Danto (Yale University Press, New Haven & London, 2009) fez-se-me luz. Gostei do último romance de Michel Houellebecq (a única obra que li dele) por causa da sua escrita neo-pop. É o caso da minúcia na descrição das marcas de produtos de consumo: máquinas fotográficas, câmaras de vídeo, automóveis, etc. - e a inserção desses produtos em certas classes sociais. É o caso dos trabalhos de Jed Martin, a personagem principal: os óleos sobre a manufactura - em que a tela sobre a ascensão, no mercado de arte, da obra de Damien Hirst sobre a de Jeff Koons é destruída; as fotografias sobre (literalmente sobre) os guias Michelin; os vídeos finais. Há, aqui, evidentes analogias com o caminho tomado pela obra de Warhol. É, ainda, o caso da impessoalidade nas relações humanas (com o pai ausente, com a fugaz namorada, com o galerista, com a personagem Houellebecq - destaque para os jantares na véspera de Natal com o pai e da sua morte por eutanásia). E, por fim, um assassinato. O de Houellebecq. Como se fosse, diz a personagem principal, uma tela de Pollock, nome maior do expressionismo abstracto (New York School, 1940-50). Ora, se na história das artes visuais, a pop (1960) estabelece uma ruptura com o expressionismo abstracto, a personagem Houellebecq tinha que morrer. Quem a matou? O tal cirurgião plástico? O próprio Jed Martin? Responda quem souber...

2.10.11

La chanson du mal-aimé de Apollinaire e o modernismo

Talvez - quem sabe? - La chanson du mal-aimé (Apollinaire, Alcools, col. Poésie, Gallimard, Paris, 1972, pp. 17-32) seja um dos mais belos e importantes poemas do século XX. Como os dois poemas de Yeats de que falei atrás. Ou, já agora, e sem a mínima dúvida, a Ode Marítima de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Pessoa.

Na Chanson du mal-aimé seduzem-me, logo, estes versos quase iniciais: «Lorsqu'il fut de retour enfin / Dans sa patrie le sage Ulysse / Son vieux chien de lui se souvint / Près d'un tapis de haute lisse / Sa femme attendait qu'il revint». De facto, este regresso a casa, na impossibilidade mesma que tal regresso comporta (como o regresso da frente de batalha na I Guerra Mundial, onde Apollinaire foi gravemente ferido), situa-se apenas ao nível do lembrar e do esperar. E não podia situar-se a outro nível. A modernidade tinha começado a erosão das grandes narrativas - neste caso as narrativas de Homero.

Um esperar e um lembrar aqui presentes: «Mon beau navire ô ma mémoire / Avons-nous assez navigué / Dans une onde mauvaise à boire / Avons-nous assez divagué / De la belle aube au triste soir». Um esperar e um lembrar cujos contrapontos são navio e memória, beber e divagar, como em Campos. E, como em Campos, o poeta não abandona o cais. Espectador, como o foi também Baudelaire em Les fleurs du mal, esse indício primeiro do modernismo, resta-lhe este enunciado: «Beaucoup de ces dieux ont péri / C'est sur eux que pleurent les saules / Le gran Pan l'amour Jésus-Christ / Sont bien morts et les chats miaulent / Dans la cour je pleure à Paris».

À semelhança do cisne, do célebre poema de Baudelaire, que debica a secura do chão, nada mais resta, aqui, a não ser delírio, esterilidade, morte (como na guerra de 1914-18, mais uma vez): «Destins destins impénétrables / Rois secoués par la folie / Et ces grelottantes étoiles / De fausses femmes dans vos lits / Aux déserts que l'histoire accable».

Ora, é precisamente a partir deste «Aux déserts que l'histoire accable» que Apollinaire, como Yeats ou Campos, indica os caminhos da modernidade. Estávamos, neste caso, em 1913, data da primeira publicação em livro do poema. E Apollinaire já tinha, entretanto, escrito sobre o cubismo.

7.9.11

Easter, 1916 de Yeats e os modernismos

«Too long a sacrifice // Can make a stone of the heart.» - na tradução de José Agostinho Baptista (W. B. Yeats, Poemas, col. Gato Maltês/18, Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, pp. 54-55), «Um sacrifício demasiado longo / Pode em pedra um coração tornar».

Estes dois versos pertencem ao poema Easter, 1916, Páscoa de 1916. Um poema escrito a meio da I Guerra Mundial (1914-18) - em que muitos artistas se empenharam melancólica e suicidamente. «And what if excess of love // Bewildered them till they died?», «E que importa se por excessivo amor // Enlouqueceram até à morte?» - pergunta pouco adiante Yeats.

«Are changed, changed utterly: // A terrible beauty is born.», «Mudaram, mudaram completamente: // Uma terrível beleza nasceu.» - eis o fim do poema. Todavia, antes, tinha escrito (pp. 50-1): «All changed, changed utterly: // A terrible beauty is born.», «Tudo mudou, tudo mudou completamente: // Uma terrível beleza nasceu.».

O que significa este tudo em mudança? A vida, certamente. E a arte, também. Por isso, «A terrible beauty is born» acaba por ser um enunciado de uma proposta artística. Uma proposta artística que tinha irrompido radicalmente em 1907 - com Les demoiselles d'Avignon de Picasso. E que alguns artistas têm prolongado até hoje.

5.1.11

A última pintura de Ticiano como pretexto



A pintura de Ticiano oscila entre um erotismo e um horror expressivos - de que Pietà, por exemplo, completada em 1576 pelo seu discípulo Palma Giovane ("O que Ticiano deixou inacabado, Palma reverentemente acabou e doou a Deus"), dá conta. Ticiano morre, entretanto, no ano seguinte. Da peste que devastou Veneza a partir de 1576? Não se sabe. O que se sabe é que Pietà, onde Ticiano parece figurar como S. Jerónimo, é a sua última pintura. E, não fosse provavelmente a peste, esta pintura seria para o altar da capela de Cristo, na igreja de Santa Maria Gloriosa dei Frari, em Veneza - onde, Ticiano assim o dizia, devia ficar o seu túmulo.

Mas, entre o erotismo e o horror, destaca-se na pintura de Ticiano, subterrâneo, o poder. Um poder diferente do que esteve por detrás das encomendas: o poder da igreja e o poder do reino. Mas, mesmo assim, poder. Possivelmente, o poder que advinha de Ticiano se saber o maior pintor de Veneza desde que o seu mestre, Giovanni Bellini, tinha morrido - e, quem sabe, desde a morte de Giorgione. Todavia, o que há em Bellini de harmonia renascentista, há em Ticiano de tumulto, de excesso (mesmo quando poético), de inacabado. Como há-de acontecer, mais tarde, na reviravolta que opera o seu auto-intitulado discípulo: Tintoretto. Neste, tudo se transforma em vertigem, numa vertigem abissal.

Disto, e não só, fala Mark Hudson - Titian. The Last Days, Walker & Company, New York, 2009. E, ainda que as estórias pessoais do narrador, ao longo do livro, desequilibrem a narrativa, ela vai ganhando, pouco a pouco, fulgor. Um fulgor que a documentação sobre Ticiano e a sua época consolidam.

28.8.10

Des-democratizar_1

Em Démocratie, dans quel état? há um texto certeiro de Wendy Brown. Diz-se aí que a des-democratização é consequência: 1. da fusão entre o poder do Estado e o poder dos grupos económicos; 2. das operações de marketing e de management (o papel das agências de comunicação e imagem) a que os candidatos partidários e respectivos programas se sujeitam, desvirtuando, assim, as eleições "livres"; 3. da erosão que o neo-liberalismo produziu e continua a produzir na democracia liberal; 4. do poder dos tribunais - que, em vez de decidirem o que é interdito, decidem o que deve ser feito, entrando, assim, em conflito com o poder legislativo; 5. da mundialização/globalização - que causou a erosão da soberania dos Estados nações (por exemplo, a decisão da UE, de Setembro, dos orçamentos de Estado serem avaliados pelo Ecofin) ; 6. da política securitária - de que o caso dos roms (ciganos), por exemplo, é consequência.

Mas, o que é a democracia?

3.9.08

Aurélia de Souza ou um jogo de máscaras

«O que é o conhecimento? Uma interpretação, um conferir sentido, mas nunca uma "explicação"; na maior parte dos casos é uma interpretação nova de uma interpretação antiga que se tornou ininteligível e que já não passa de um sinal.», Nietzsche.


Nascida na cidade de Valparaíso, no Chile, em 1866, de uma família da burguesia endinheirada, Aurélia de Souza — que é a quarta de seis irmãs e um irmão do primeiro casamento de sua mãe, vindo a nascer mais um rapaz de um segundo casamento (tinha ela, então, 8 anos) — vai viver aos 3 anos para a Quinta da China.

Torna-se desde já interessante reter dois aspectos que irão marcar a vida e, sobretudo, a obra da pintora: por um lado a casa, não só nas suas marcas eminentemente femininas, mas também na multiplicidade de olhares que permite ter sobre o Douro, visto das margens do Porto, ali pelas bandas do Freixo; por outro lado, apesar das figuras do pai, do padrasto e dos dois irmãos, a figura tutelar da casa (melhor: aquela que assume esse estatuto e papel) é sempre a mãe — já que como companheira de aventuras em torno da pintura tem a sua irmã mais nova, Sofia.

Com uma educação em que estiveram presentes, seguramente no recato da casa, quer o saber tocar piano quer o falar francês, teve ainda lições de desenho e pintura. Em 1893 matricula-se, com a sua irmã Sofia, na aula de Desenho Histórico da, então assim chamada, Academia de Belas-Artes do Porto, começando a expôr aí os seus trabalhos no fim de cada ano lectivo e, também, em certames promovidos no Ateneu Comercial do Porto por António José da Costa, Marques de Oliveira e Júlio Costa. Três anos mais tarde matricula-se no curso de Pintura Histórica, dirigido justamente por Marques de Oliveira na Academia de Belas-Artes do Porto. Entretanto, deixando o curso inacabado (ainda chega a matricular-se no 4º ano), parte para Paris, onde permanece durante três anos (frequenta aí, na Academia Julien, os cursos de J. P. Laurens e B. Constant), regressando depois a Portugal com a sua irmã Sofia, que entretanto se lhe juntara, não sem antes viajarem por Bruxelas, Antuérpia, Berlim, Roma, Florença, Veneza, Madrid, Sevilha. Uma vez em Portugal, colabora com ilustrações em revistas e livros, participa regularmente nas exposições da Sociedade de Belas-Artes do Porto e Lisboa e nas galerias da Misericórdia e do Palácio de Cristal. Morre em 1922, com 55 anos, na Quinta da China.

Que memórias da Europa, dessa Europa mais entrevista que vivida, terão povoado a casa onde Aurélia de Souza quase sempre viveu?

Em Portugal o Rotativismo político tinha-se instalado por alturas do nascimento da pintora, e ela vai receber, aliás, pelo menos os ecos da queda do regime monárquico constitucional e da implantação da República. Ainda em Portugal a geração de 70, a de «Os Vencidos da Vida» (Eça, Antero, Oliveira Martins, Ramalho, entre outros) promove as Conferências democráticas no Casino Lisbonense (1871), onde se pode ler no programa impresso distribuído para anunciar a sua realização: «Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam esse movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos; Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa; Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna; Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa».

Mas, e na Europa, o que se passava, afinal, com «a humanidade civilizada»? Por um lado, o peso do socialismo utópico de Proudhon, que há-de vir, através de uma teia complicada e heterodoxa, a desembocar em Marx. Por outro lado, o positivismo de Comte e, em especial, a «Introdução ao Estudo da Medicina Experimental» (1865) de Claude Bernard vão fazer com que a ciência mude de paradigma (curiosamente é neste paradigma que se situam alguns dos primeiros trabalhos de Freud, em particular os sobre neurofisiologia), assumindo uma matriz determinística que a investigação e argumentação teórica de Plank, Einstein e Heisenberg irão, no princípio do século, destronar — abrindo caminho a um novo paradigma onde o protagonismo é desempenhado, lato senso, pelo indeterminismo e pelo probabilismo, consequência inevitável da deslocação de um olhar macroscópico para um olhar microscópico. Por fim, com Nietzsche passa-se a conviver com o sentido da tragédia (ou será, antes, com a tragédia do sentido?) que é matriz do humano quando desapossado do peso equívoco dos deuses ou de Deus. Em resumo: «A sociedade dominante — a da Europa ocidental — organiza-se doravante à volta dos princípios da ciência e do progresso industrial. Ao mesmo tempo são aperfeiçoadas as doutrinas que vão substituir a ordem espiritual. Efectivamente, os poderes já não podem contar com as religiões, de tal forma elas são caducas quando tradicionalistas e perigosas quando inovadoras», escreve François Chatelêt, para acrescentar em torno de Nietzsche: « Anuncia-se decididamente que existem dois campos: o dos providos da cultura, dos diletantes, dos fabricantes de doutrinas, dos idealistas, dos adeptos de qualquer poder (desde que este se mantenha firme); e o dos Filhos da Terra, dos amantes do corpo, dos partidários da letra contra o espírito, do texto contra a interpretação». E, com extrema argúcia, deixa no ar esta questão: «No fundo, a interrogação: Hegel ou Marx?, desdobra-se e desloca-se: Spencer [filósofo anglo-saxónico do século XIX que defende, no plano moral, um "utilitarismo racional" caracterizado pelo optimismo e uma doutrina social orientada para uma apologia do capitalismo liberal, que permite a livre satisfação das aspirações individuais] ou Nietzsche?»; para, logo de seguida, reinserir estas questões num eixo que (d)enuncia, afinal, a visibilidade da institucionalização de «uma determinada filosofia»: «Doravante, todo o mundo está presente no que respeita à cultura ["etapas da colonização, agitações de povos subjugados e até mesmo a fundação de associações de trabalhadores"]. Hegel pressentia este futuro: todavia, a sua sistemática histórica permitia-lhe minimizar, relegar para o passado, o "bárbaro", o "pagão", aquilo que não pertencesse à área cultural privilegiada; não concebia os acontecimentos e os povos da Ásia, da América, da África senão como momentos preparatórios, em diferentes graus, para a eclosão do Espírito, que apenas podia ter lugar, sob os auspícios das religiões reveladas, na bacia do Mediterrâneo e depois, no espaço europeu... Tais simplificações já não são possíveis: a geografia começa a desforrar-se da história. Torturado, explorado, reduzido à subserviência, o outro da Europa entra na liça...». Tal como, com Freud, entra o outro do eu: o inconsciente.

É este o esboço do ambiente cultural que domina a segunda metade de oitocentos e a primeira década de novecentos. Um ambiente simultaneamente desassossegado e cosmopolita. Pelo menos na Europa. Porque aqui em Portugal, uma certa Lisboa posta de lado, ao cosmopolitismo e à joie de vivre sobrepunha-se uma moral repressiva, ultra-conservadora, em sintonia com os cânones rurais.

Se no campo da literatura (no imediato a portuguesa, mas não só), Aurélia de Souza foi próxima no tempo de autores do Romantismo, do Realismo, do Parnasianismo, do Simbolismo, do Saudosismo, da «Renascença Portuguesa» ou da geração de «Orpheu» (podia-se especular sobre uma certa visibilidade de Cesário Verde e de Pascoaes), no campo das artes plásticas inscreve-se entre os naturalistas (Silva Porto, Marques de Oliveira, Henrique Pousão, Malhoa e Columbano Bordalo Pinheiro — todos membros do Grupo do Leão, que o próprio Columbano retratou em 1885). À escola naturalista anda aliado um acontecimento importante: em 1865 começaram a ser concedidas pensões oficiais para a frequência da École des Beaux-Arts de Paris que substituía Roma — viagem obrigatória, ainda, mas só no fim da bolsa. Acontece que oito anos depois são contemplados, por concurso, dois pintores formados pela Academia do Porto: Silva Porto e Marques de Oliveira. Nos tempos deixados livres pelas obrigações da Escola de Paris, tomaram contacto com os artistas naturalistas de Barbizon. Ora, quando regressam à pátria, e ao ficarem responsáveis pela Academia de Lisboa e Porto, respectivamente, vão ser os grandes introdutores do naturalismo em Portugal.

Apesar de se inserir no naturalismo, até pelo magistério de Marques de Oliveira, a obra de Aurélia de Souza vive de uma ocasionalidade estética (por aí passam reflexos das estéticas românticas, simbolistas, impressionistas, expressionistas, da Arte Nova ou, até, um certo peso cultural do Japão — por vezes o traço faz lembrar a linhagem do haiku, poema onde a meditação, que atravessa dois ou três versos, assume uma dimensão cósmica e originária). E se, por um lado, essa ocasionalidade pode ser fruto das suas viagens antes do regresso a Portugal — mas, também, de uma postura intelectual onde a vertigem ia mais depressa para o ver do que para o saber (sintomaticamente, é assumida por ela a seguinte asserção: «Ce n'est pas en savant c'est en passant qu'il faut regarder») — por outro lado, todo o peso matricial da casa da Quinta da China é determinante na sua obra.

Aliás, é justamente do vai-vém entre essa abstracção que é o olhar e a efectiva clausura (decorrente de uma austeridade feroz ou, pelo contrário, aí levando?) de quem olha as paisagens e ambientes que nasce a obra de Aurélia de Souza. Não é por acaso que duas cenas da sua infância marcaram a pintora: uma, foi tentar desesperadamente o choro para ver a cor das lágrimas; outra, de tão absorta no perfil das mãos e das sombras que elas declinavam, esquecer-se de tocar as teclas do piano.

Como se prova, a questão do olhar (um olhar introspectivo — mesmo quando mascarado de extroversão, ele mais não é do que um olhar introspectivo e narcísico) é determinante na obra de Aurélia de Souza: seja no olhar sobre si (série de «Auto-retratos»), no olhar debruçado sobre o exterior (paisagens), no olhar para dentro do perímetro da casa (quotidianos).

No primeiro caso, o dos «Auto-retratos» (destaque para o «Auto-retrato» com o casaco vermelho), há sempre uma dicotomia entre o fundo da mancha pictórica (a escuridão dos amarelos, o entrecruzar sombrio e vegetal dos cinzas e verdes) e o rosto; mas, também, entre o nível do olhar (um olhar austero, fixo num indecifrável ponto do horizonte), o plano carnal do rosto e, por fim, a mancha nítida de um corpo adivinhado. Como se todo um jogo de duplicidade em torno do masculino/feminino atravessasse estas obras (veja-se, por exemplo, como Aurélia se traveste, nesse caso em corpo inteiro, de Santo António ou de Arlequim), reforçando o seu peso narcísico. Já, por exemplo, no «Retrato da Mãe da Artista» há um olhar magoado, de luto, mas, ao mesmo tempo, tranquilamente feminino — aliás, repita-se, a obra de Aurélia de Souza não contempla curiosamente qualquer homem, apenas o universo, visível ou adivinhado, da sensibilidade feminina.

Poder-se-ia falar também de sensibilidade feminina a respeito das paisagens da pintora. Paisagens turbulentas, onde há sempre uma demarcação entre o território da casa e aquilo que esta deixa entrever (caso de «Na Varanda» ou de «Vista do Douro»). E em que «Jarros na Borda de Uma Taça» é emblemático: pelo aspecto carnal da corola e pela nitidez dos estames, esta tela evoca alguns auto-retratos, em particular aquele em que a pintora se traveste de Arlequim; mas há, também aqui, um efeito de Narciso: no reflexo da água, os estames perdem-se nos contornos omnipresentes das corolas.

É ainda neste universo feminino, matricial que se situam as telas sobre o quotidiano. E, sublinhe-se, é justamente uma tela da série das paisagens («Outono—Porto») que para aí abre o caminho através de um desenvolvimento em espiral, resguardando uma vez mais o espaço — tal como se pode verificar, por exemplo, em «À Sombra» (onde a homologia na definição do espaço é reforçada por oposições lumínicas e de figuras). Mas, nesta série duas telas merecem atenção redobrada: «Interior — Senhora à Janela» e «No Atelier». Em «Interior — Senhora à Janela», uma mulher parece olhar para fora — a cortina da janela entreaberta ao de leve; só que, de facto, a postura do corpo (a cabeça ligeiramente inclinada sobre o ombro, defendida pela mão, enquanto a outra está abandonada no parapeito dessa janela fechada) mais releva do alheamento, apesar da vida que acontece lá fora e que o olhar parece incapaz de suster. Em «No Atelier», por entre telas esbatidas pelos castanhos, prestes a serem apenas sombra, destaca-se uma paisagem com um céu de um azul limpo de tempestades e um vulto de mulher — a própria pintora — dobrado sobre uma mesa, escondendo ao espectador o sentimento adivinhado de desespero. Há, aqui, uma matricialidade — culturalmente decadentista e finissecular — que se impõe desmesuradamente, a ponto de a luz se tornar em sombra, a paisagem em fixação pictórica, o olhar em delírio, nada mais restando do que resguardar no desassossego da vida e do atelier um culto narcísico exasperado ferido de morte. Eis Aurélia de Souza: as máscaras foram-na habitando sempre no limite de si própria — e agora é um corpo sem rosto que nos fixa no mais profundo de si.

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Enquanto penso num texto sobre a pintura de Aurélia de Souza e o modernismo europeu, fui reler este texto meu - in A Razão, revista trimestral, Julho/Agosto/Setembro, ano 5, n.º 55, 1995.