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Letra corrida by Jose Fernando Guimaraes is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
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5.9.13

Golpes de estado, não

Desculpem lá o lugar comum: já não há paciência para ouvir os políticos, sejam do governo ou da oposição - e, aqui, incluo também comentadores, "analistas" e quejandos. Quando se devia debater ideias, somos confrontados com retórica e demagogia (neoliberal, comunista). Eu sei que, hoje em dia, a polis é aparentemente a "Europa". Mas, de facto, já não há polis alguma, é esse o drama da "Europa". Uma "Europa" sem projeto algum, refém dos países que ainda não se endividaram até ao ponto de não retorno. Eu sei que, para a "Europa", Grécia, Portugal e mais uns quantos "países" residuais não contam - servem apenas para que a "Europa", caso da Alemanha por exemplo, tenha mais lucros em função dos empréstimos, a tão famigerada emergência "nacional" de que o "governo" e os "analistas" "nacionais" tanto gostam de falar. Ficámos ou saímos do euro? Destruímos ou não destruímos o estado social? Destruímos ou não destruímos o serviço nacional de saúde? Destruímos ou não destruímos a escola pública? Sofremos todos (repito: todos) ou não sofremos todos (repito: todos) a austeridade? Somos todos solidários (no sentido de criar igualdade de oportunidades, de debelar injustiças flagrantes) ou não somos todos solidários? Esta é para mim, na esteira da social-democracia, do socialismo democrático, da democracia-cristã, a fronteira que se deve ter presente: a fronteira entre o sim e o não. Esta é a fronteira que a constituição do país estabelece. Suspendê-la é ilegítimo e ilegal. Que o ilegítimo está a ser posto em prática, sei-o, sabemo-lo todos (rasgam-se contratos com os mais indefesos). E o ilegal? Os neoliberais querem-no: governar para além da constituição. Que o inscrevam, então, num programa político e que vão a votos. Honrando a palavra dada - caso único na democracia do passado recente. Golpes de estado, caso da suspensão da constituição, não.

10.2.13

L'origine du monde de Courbet: uma polémica


L'origine du monde (1866) de Courbet reacendeu uma polémica. Jean-Jacques Fernier deparou-se com uma nova pintura de Courbet que, diz ele, é o rosto daquele torso.



Todavia, L'origine du monde, como, aliás, L'atelier du peintre (1854-55), é uma alegoria. Uma alegoria sem a mínima carga erótica. É apenas - e que apenas, daí o seu realismo (no sentido usual e no de uma corrente artística) notável - o sexo de um torso feminino. E, por isso mesmo, sem rosto. Aliás, se rosto tivesse, seria semelhante a La femme au perroquet (1866), que entronca na tradição do renascimento (a Vénus de Urbino, ca. 1538, de Ticiano, a Virgem adormecida, ca. 1510, de Giorgione), ou até, e talvez mais precisamente, a Femme nue couchée (1862).

É certo que o Musée d'Orsay já contrariou Fernier, dizendo, o que é a mais elementar verdade, que os contemporâneos de Courbet conheciam o quadro tal e qual está exposto neste museu, e de que é pertença. É ainda certo que já houve quem dissesse que a sintaxe do novo quadro, a tal cabeça complementar, nada tem a ver com L'origine du monde. Até onde irá a polémica?

Polémica à parte, L'origine du monde é da mesma altura da série Puits-Noirum local perto de Ornans e, como escreve Michael Fried em Courbet's realism (1992), dialogando com ela. E, já agora, não se esqueça o papel que a fotografia (de Gustave Le Gray e outros) teve na obra de Courbet.

Por isso, mais valia estar calado até que exames de raios-x, textura das cores e outros sejam feitos. Porque, verdade seja dita, L'origine du monde, a que conhecemos, é, entre outras obras, um começo da modernidade.