14.3.23

Louise Glück: uma introdução e uma tradução

Louise Glück e dois versos obsessivos

Desde sempre atravessada por diversas memórias (infância e família são marcas fortíssimas) e pela morte, antes de The Wild Iris (1992), traduzido por Ana Luísa Amaral (A íris selvagem, Relógio d'Água, 2020), que lhe mereceu o Pulitzer em 1993, Louise Glück teve um período em que não escreveu, apesar de atravessada por estes dois versos obsessivos: At the end of my suffering / there was a door. De facto, haver uma porta no fim do seu sofrimento é o que percorre a sua poesia, melhor, é a sua poesia (à semelhança da poesia de Emily Dickinson) - como se pode constatar aqui, em Winter Recipes from the Collective (2021), traduzido por Inês Dias (Receitas de inverno da comunidade, Relógio d'Água, 2023) e que é, eventualmente, um dos livros que convocam todos os temas da sua poesia e onde a morte se insinua de forma avassaladora - como durante a queda de um penhasco segurando, eventualmente, a irmã (cf. infra Poema). Aliás, a invocação da irmã e da mãe são, neste livro, mas não só, recorrentes, figuras justificativas do destino, seja moira ou fatum (cf. infra Pensamentos nocturnos).

Todavia, há uma outra questão: a íris selvagem, que dá o título ao livro de 1992, tanto pode ser a flor como uma parte do olho. Daí, esta oscilação, esta abertura à polissemia pelo uso de palavras homógrafas (ou homófonas) ser também uma outra característica da sua poesia. Tudo caminha, afinal, para o uno - aí onde mora o ser: (...) Tudo é mudança, disse, e tudo está ligado. / Também tudo regressa, / mas o que regressa não é o que foi embora -  (...) (cf. infra A negação da morte 1. Um diário de viagem). Por outras palavras: o que regressa são perceptos, como assinala Deleuze sobre a pintura, isto é, cores e sentimentos. Que são, no limite, algo em torno do qual gira ainda a poesia de Louise Glück - levando-nos de encontro ao mais fundo de nós, ao dizível do indizível. E um poema é justamente isso...


*


Poema

 Dia e noite vêm

de mãos dadas como rapaz e rapariga

parando apenas para comer frutos silvestres de um prato

pintado com imagens de pássaros.

 

Escalam a alta montanha coberta de gelo,

depois voam para longe. Mas tu e eu

não fazemos isso –

 

Escalamos a mesma montanha;

rezo para que o vento nos erga

mas não adianta;

escondeste a tua cabeça para não

ver o fim –

 

Para baixo e para baixo e para baixo e para baixo

é para onde o vento nos leva;

 

tento animar-te

mas palavras não são resposta;

canto-te como a mãe me cantava –

 

Tens os olhos fechados. Passamos

pelo rapaz e pela rapariga que vimos no princípio;

agora estão de pé numa ponte de madeira;

consigo ver a sua casa por detrás deles;

 

perante a queda desenfreada, eles chamam-nos,

mas não, o vento está nos nossos ouvidos,

é o que ouvimos –

 

E depois estamos simplesmente a cair –

 

E o mundo passa,

todos os mundos, cada qual mais belo que o anterior;

 

Toco o teu rosto para te proteger –

 

 A negação da morte

 

1. Um diário de viagem

 

Tinha deixado o meu passaporte num motel em que ficamos uma noite ou coisa que o valha

cujo nome não me conseguia lembrar. Isto foi como tudo começou.

O hotel seguinte não me quis receber,

um belo hotel, num laranjal, com vista para o mar.

Com que naturalidade aceitaste

o quarto que podia ter sido nosso,

e, depois, ficaste todo contente na varanda,

atirando-me bombons. No dia seguinte

retomaste a jornada que íamos fazer juntos.

 

O porteiro arranjou-me um cobertor velho.

De dia, sentava-me em frente da cozinha. De noite, estendia o cobertor

entre as laranjeiras. Todos os dias o mesmo, excepto o clima.

 

Dias depois, o pessoal teve pena de mim.

O empregado de mesa trazia-me comida do jantar,

umas batatas ou um naco de cordeiro. Às vezes chegava um postal ilustrado.

Na frente, luzidias atracções turísticas e obras de arte.

Uma vez, uma montanha coberta de neve. Cerca de um mês depois,

houve um pós-escrito: X manda cumprimentos.

 

Disse um mês, mas de facto não tinha noção do tempo.

O empregado de mesa desapareceu. Veio um novo, depois um outro, creio.

De tempos a tempos, um deles havia de se juntar a mim no cobertor.

Gostei desses dias! cada qual igual ao anterior.

Havia os degraus de pedra que subíamos juntos

e a cidadezinha onde tomávamos o pequeno-almoço. Ao longe,

podia ver a enseada onde costumávamos nadar, mas sem nunca mais ouvir

as crianças chamando-se umas às outras, nem te ouvir

mais perguntando-me se eu queria uma bebida fresca,

que eu queria sempre.

 

Quando os postais acabaram, li de novo os antigos.

Vi-me em pé debaixo da varanda com aquela chuva

de beijos, incapaz de acreditar que me ias abandonar,

implorando-te, é claro, embora sem palavras –

 

O porteiro, percebi, tinha estado atrás de mim.

Não fique triste, disse. Iniciou a sua própria jornada,

não no mundo, como o seu amigo, mas em si mesma e nas suas memórias.

Como elas se vão, talvez alcance

aquele invejável vazio no qual

todas as coisas pairam, como a taça vazia no Daodejin –

 

Tudo é mudança, disse, e tudo está ligado.

Também tudo regressa, mas o que regressa não é

o que foi embora –

 

Vimo-la afastar-se. Descer os degraus de pedra

para a cidadezinha. Senti

que algo verdadeiro tinha sido dito

e embora preferisse ter sido eu próprio a dizê-lo

pelo menos fiquei contente por ouvi-lo.


2. A história do passaporte

 

Eu regressei mas tu não regressaste.

Foi assim:

 

Um dia um envelope chegou,

com selos de uma pequena república europeia.

O porteiro entregou-mo com ar de grande cerimónia;

tentei abri-lo com o mesmo estado de espírito.

 

Dentro estava o meu passaporte.

Havia o meu rosto, ou o que tinha sido o meu rosto

nalgum momento, bem no passado.

Mas eu já me tinha separado dele,

aquele rosto sorrindo com tal convicção,

cheio de todas as memórias das nossas viagens juntos

e dos nossos sonhos de outras jornadas –

 

Atirei-o ao mar.

 

Afundou-se logo.

Para baixo, para baixo, enquanto continuei

a olhar a água vazia.

 

Entretanto, o porteiro foi-me observando.

Venha, disse ele, pegando-me no braço. E começamos

a andar à volta do lago, como eu o fazia por hábito diariamente.

 

Vejo, disse ele, que já não

deseja retomar a sua vida passada

para se orientar, é isso, em linha recta como o tempo

sugere que fazemos, mas sim (aqui ele gesticulou na direção do lago)

num círculo que aspira a

essa quietude no coração das coisas,

embora eu prefira pensar que também se assemelha a um relógio.

 

Nesse momento tirou do bolso

o grande relógio que andava sempre consigo. Desafio-a, disse ele,

a dizer, olhando para aqui, se é segunda-feira ou terça.

Mas se olhar para a mão que o segura, aperceber-se-á que já não sou

um rapaz, o meu cabelo tem cãs.

Nem vai ficar admirada ao saber

que foi em tempos escuro, como o seu deve ter sido escuro,

e encaracolado, diria eu.

 

Com estas considerações, estávamos os dois

a olhar para um grupo de crianças brincando nas poças,

cada corpo rodeado por uma boia.

Vermelho e azul, verde e amarelo,

um arco-íris de crianças chapinhando no lago límpido.

 

Eu podia ouvir o tique-taque do relógio,

provavelmente aludindo à passagem do tempo

enquanto de facto o anula.

 

Deve perguntar-se, disse ele, se porventura se ilude.

O que quero dizer é estar a olhar para o relógio e não

para a mão que o segura. Ficámos um pouco a olhar para o lago,

cada um de nós pensando o que nos ocorria.

 

Mas não é a vida de filósofo

rigorosamente como a descreve, perguntei eu. Ir pelo mesmo caminho,

à espera de se descobrir na verdade.

 

Mas você deixou para trás o que fazia, disse ele, que é aquilo que

o filósofo faz. Lembra-se de quando manteve o que chamou

o seu diário de viagem? Costumava ler-mo,

lembro-me que tinha histórias de todo o género,

a maior parte histórias de amor e histórias de perda, pontuadas

por detalhes fantásticos que não ocorreriam à maioria,

 

e ainda ao escutá-los tinha a sensação de estar a ouvir

a minha própria experiência mas contada de um modo mais belo

do que aquele que eu podia ter usado. Senti

 

que você estava a falar comigo ou sobre mim apesar de eu nunca me ter afastado de si.

Como se chamava? Um diário de viagem, creio que o disse,

ainda que eu sempre o tenha chamado A negação da morte, a partir de Ernest Becker.

E você tinha-me dado um nome estranho, lembro-me.

 

Concierge, disse eu. Concierge foi o que lhe chamei.

E antes disso, você, que é, creio,

uma convenção na ficção.


Pensamentos nocturnos

 

Nasci há muito.

Não há mais ninguém vivo

que me recorde como bebé.

Era um bebé bom? Um

mau? Excepto na minha cabeça,

esse debate está agora

silenciado para sempre.

O que molda

um bebé mau, perguntei-me. Cólicas,

disse a minha mãe, o que significava

que chorava muito.

Que mal pode haver

nisso? Como era difícil

estar vivo, não é de admirar

que todos tenham morrido. E quão pequena

devo ter sido, ao ser afagada por ela

acolhendo-me.

Que pena ter-me tornado

palavrosa, sem qualquer ligação

a essa memória. O amor de minha mãe!

Demasiado cedo vim à tona,

eu,

forte mas amarga,

como um relógio despertador.


Uma história sem fim

 

1.

 

A meio da frase

ela adormeceu. Tinha estado a contar

uma espécie de fábula sobre

uma jovem que acorda uma manhã

transformada em ave. Tal como a vida,

disse a pessoa ao meu lado. Pergunto-me,

prosseguiu, acha que aqui a nossa amiga

tenciona voar quando acordar?

A sala estava muito calma.

Estávamos ambos a estudá-la; de facto,

todos na sala estavam a estudá-la.

A mim, ela pareceu-me como dantes, embora

a cabeça tivesse descaído sobre o peito; além disso,

tinha boas cores – Parece estar a respirar,

disse o meu vizinho. Não só isso, continuou,

estamos todos nós a respirar nesta sala –

como pode uma história acabar. E ainda,

acrescentou, podemos nunca vir a saber

se a história era para ser

um conto moral ou, quem sabe, uma história de amor,

desde que foi interrompida. Por isso não podemos estar seguros

de ter vivido, até agora, o fim.

Mas quem o viveu, disse ele. Quem o viveu?


2.

 

Ficamos assim bastante tempo,

bloqueados, pensei para comigo,

como barcos parados pelo mau tempo.

O meu vizinho tinha-se fechado sobre si.

Algo, sentia-o, existia entre nós,

nada tão definitivo como uma criança,

mas, não obstante, real –

Entretanto, ninguém falou.

Ninguém se adiantou a pedir ajuda

ou se ajoelhou ao lado da mulher deitada.

O sol ia-se pondo; as longas sombras dos olmos

alastravam-se como lagos escuros sobre a erva.

Finalmente o meu vizinho levantou a cabeça.

Manifestamente, disse ele, alguém deve acabar esta história

que era, creio, para ter sido

uma história de amor que mulheres tontas contam, levando

muito tempo, carregadas de tangentes e distracções

destinadas a disfarçar o inevitável

tédio da sua credulidade. Mas como, disse,

mudamos de cavaleiros, também podemos mudar

de cavalos. Agora que o conto é meu,

prefiro que seja uma meditação sobre a existência.

A sala ficou muito quieta.

Sei o que pensam, disse; todos desprezamos

histórias que parecem áridas e intermináveis, mas a minha

vai ser uma verdadeira história de amor,

se por amor queremos referir a maneira como amávamos quando éramos jovens,

como se não houvesse mais tempo algum.


3.

 

A noite caiu logo. Logo

a luz veio.

No chão, a mulher mexeu-se.

Alguém a tinha coberto com um cobertor

que ela pôs de lado.

É de manhã, disse ela. Tinha-se

apoiado de modo a poder ver

a porta. Havia uma ave, disse.

Alguém deve beijá-la.

Talvez já a tenham beijado, disse o meu vizinho.

Oh não, disse ela. Uma vez beijada

torna-se num ser humano. Portanto não pode voar;

pode apenas sentar-se e ficar de pé e deitar-se.

E beijar, acrescentou o meu vizinho.

Já não, disse ela. Houve apenas uma vez

para quebrar o feitiço que lhe gelou o coração.

Foi uma má troca, disse ela,

as asas pelo beijo.

Olhou para nós, como uma figura no cimo de uma montanha

olhando para baixo, embora fossemos nós os únicos a olhar para baixo,

de facto. Evidentemente a minha cabeça já não é o que era, disse ela.

A maior parte do que me foi acontecendo desvaneceu-se, mas certos

princípios implícitos foram naturalmente

expostos com surpreendente clareza.

Os chineses tinham razão, disse, em honrar os velhos.

Olhe-se para nós, disse. Estamos todos nesta sala

ainda à espera de mudar. É por isso que procuramos o amor.

Procurámo-lo toda a nossa vida,

mesmo depois de o ter encontrado.


Louise Glück, Winter Recipes from the Collective, poems, Farrar, Straus and Giroux, NY, 2021. A introdução e a tradução são minhas, José Fernando Guimarães.

7.3.23

Gottfried Benn

  

Quem vive só…

 

Quem vive só vive no mistério,

mantem-se na torrente das imagens

gerando-se, germinando,

até as sombras trazem o seu fogo.


Está na gestação de cada sedimento,

cumprido em pensamento e defendido,

é senhor da destruição

e do humano que sustenta e acasala.

 

Sem emoção vê como a terra

mudou desde que se lhe abriu,

nunca mais morte nunca mais devir:

o que se cumpre olha-o quedo e fixo.

 

Gottfried Benn, Poèmes, trad. Pierre Garnier, Gallimard, Paris, 2010, p. 170. Este poema pertence ao período entre 1922 e 1936. A tradução é minha, JFG.