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Letra corrida by Jose Fernando Guimaraes is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
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30.11.16

28.

Morrer assim, por
entre os cães, não é bem
morrer, antes
acabar. Hão-de cobrir
o corpo, aquecê-lo
na espera
do testemunho
que o acabado
não testemunha. Os cães,
sim. E hão-de fundar assim
a morte, esta,
a vir.

25.11.16

27.

Enquanto os cães
ladram, o breu
ilumina-se, iluminando
teias de geada e noite
suspensas no ladrar. E
o sono vem lento
às mãos, emaranha
a paisagem,
as raízes. É este o lugar
da casa. O ladrar dos cães
funda-o no poema.

12.11.16

26.

Diz o estranho: – «Regresso
a essa água
que me foi fonte
primordial, habito
para sempre a origem
das origens – onde é
indefeso o pensar,
essa aresta afiada
de pedra». E aproximou-se
cada vez mais da sombra
das coisas,
os seus contornos
sem peso. Como caminhar,
assim,
para a fonte,
para a raiz? Como trilhar
esse caminho
sem regresso?
Olha-se. Mais além,
o silêncio
das batalhas
entontece-o. – «Eu sou. E
os espelhos apenas mostram
fantasmas». É
noite. Noite silenciosa,
tão antiga como a fonte,
a raiz. Que não são
o espelho. O espelho
é um ido que o bafo
e a ferrugem
testemunham. – «Eu sou no agora,
eu sou um trilho,
um bicho
no trilho. Nada mais. Todavia,
a palavra,
a palavra do agora,
é-me. E na linguagem
ergo-me
como um cavalo
encantado. Nada mais
me resta. Nem a fonte,
nem a raiz. Apenas
o regresso a casa
– onde o poema é luz,
seja meio-dia
ou meia-noite». Mas,
poema algum se responde
na pergunta: – o que é
a verdade? Ou talvez
responda. No que funda
em surdina. Como quem fecha
as portadas
e acende o fogo. Na mesa,
a ceia – agora
que os deuses partiram. Deitados,
os cães aguardam. E o poema
também.