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Letra corrida by Jose Fernando Guimaraes is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
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16.10.19

40.

O fio de um sussurro. Um fio
de linho. Um fio
de lâmina. Chamam-me
– os meus mortos. Convocam-me
para cuidar deles,
como quem apela
ao que há de vida
e de morte
em mim. A toalha. A navalha.

14.10.19

s/t

A solidão da criança quando criança. A solidão do velho quando velho.

8.10.19

Da abstenção

45,5%, nestas legislativas. A ordem e o eventual estudo da coisa pública sem a ordem do poder (demagógica, por definição).

10.9.19

39.

O vento levanta
a poeira, derreando
o olhar. E os caminhos
fecham-se num círculo
tosco, figura próxima
da geometria. Em si,
os bichos são profundo
espanto, tão profundo
quanto o do vento,
que é sopro.

23.8.19

A questão da obra de arte: o caminho metafísico

Was bleibet aber, stiften die Dichter.

Mas o que fica, os poetas o fundam. (na tradução de Paulo Quintela).

E os poetas fundam o que permanece. (na tradução de Maria Teresa Dias Furtado, em que «permanece» tem o eco de Heraclito e Parménides).

Esta é a minha tradução: 

O que resta agora, os poetas fundam-no.,

em que sublinho o Tempo (resta agora: o tempo-resto enquanto o ainda-não-do-já, enquanto o a-vir), presente no acto de fundar (o Ser).

Este verso é o último verso de Andenken (Recordação), um poema notável de Hölderlin (1770-1843). Aliás, Hölderlin mereceu a atenção desmedida de um filósofo seminal, Heidegger (1889-1976). Em 1934-35 lecciona, em Fribourg, Hölderlins Hymnen «Germanien» und «Der Rhein» (1980; há tradução francesa). Em 1941, Hölderlins Hymnen «Andenken». Em 1942, Hölderlins Hymnen «Der Ister» (1984). Em 1951, com textos datados de 1937 a 1943, publica Erlauterungen zu Hölderlins Dichtung (há tradução francesa). Unterwegs zur Sprache (1959; há tradução francesa) e Holzwege (1950; há tradução portuguesa) são outras obras sobre a questão da obra de arte, seja poesia ou artes visuais (caso, por exemplo, das botas, de 1886, de van Gogh).

Depois do seminal Sein und Zeit (1927), onde fica por publicar uma parte substantiva que pertencia ao projecto, intitulada Zeit und Sein, publica um texto tardio, 1962, com este título, mas, e é Heidegger quem o diz, que este texto nada tem a ver com o que estava planeado para Sein und Zeit, e onde refere a importância conceptual do tempo para o conceito de ser.

Mas, porquê os textos sobre Hölderlin, Stefan George, Trakl, Rilke, Rimbaud, René Char?

Como escreve Hölderlin, 

O que resta agora, os poetas fundam-no.

Ou seja, a palavra do poema, o Dito, des-vela (aletheia) o ser - caminho ontológico, melhor, metafísico sobre a questão da obra de arte. Por isso, o poema é a casa do ser - repare-se na metáfora (a casa é lugar de abrigo - Heraclito diz: o homem habita, enquanto homem que é, na proximidade de deus; também em Ueber den Humanismus (1947; 1949), Heidegger conta esta história, referida por Aristóteles: a uns estrangeiros que o foram visitar, e que hesitavam em entrar, Heraclito incitou-os a entrar e, estando junto de um forno de padeiro, disse-lhes: «Também aqui os deuses estão presentes.»; ainda Heraclito: «a permanência (usual) é para o homem o domínio aberto à presença do deus (do in-sólito)»; Heidegger escreve, por fim: «(...) é a partir da essência do ser pensada de acordo com o que ela é que poderemos um dia pensar o que é uma «casa» e o que é «habitar».) (pp. 145 sg. da edição francesa da Aubier; a tradução é minha). Por isso, então, o poeta é pastor do ser - repare-se na metáfora (o pastor sai (des-vela?) e entra (oculta?) no curral da casa, que era usualmente no piso térreo, com as suas ovelhas que partem ou regressam do pasto - e que, regressando, aquecem o resto da casa). 

Porque reaferi caminho ontológico para metafísico? «[A] minha filosofia (...) não questiona apenas, como toda a filosofia anterior, o ser do sendo, mas a verdade do ser.», escreve Heidegger numa carta a Jean Beaufret de 1945. Com o fim da metafísica a «golpes de martelo», com «dinamite», levada a cabo por Nietzsche, e de que a expressão «Deus morreu» é sintoma maior, Heidegger pensa, em Holzwege, o conceito de «mundo» (historicidade) e o de «terra» (onde se oculta e/ou se des-vela o ser - o Urgrund, o informe, o fundamento para o Nietzsche romântico). Além disso, não se pode pensar o ser sem pensar o nada: «o Ser nega - enquanto Ser» (id., p. 161). Eis umas páginas da folha, tecidas junto ao abismo - logo em 1927, no Sein und Zeit. Aí onde se filosofa até à vertigem. Aí onde se abre o caminho para, a partir de 1950, o des-velar do ser no Dito.


20.8.19

Angelus Silesius

A rosa é sem porquê: floresce porque floresce, / Não cuida de si própria, não pergunta se a vemos.

Angelus Silesius, nascido Johannes Scheffler, é um poeta da língua alemã que nasceu no século XVII. Professando o luteranismo, converte-se na idade adulta ao catolicismo, sendo também, além de médico, padre. Os seus epigramas estão conforme a literatura mística e religiosa do barroco alemão. Foi influenciado por Jacob Böhme (séculos XVI e XVII) e, ainda, por Meister Eckhart (séculos XIII e XIV), entre outros.

Deus é um puro Nada. Nem o aqui nem o agora O tocam. / Quanto mais tentas captá-Lo, tanto mais te escapa.


Heidegger questiona a expressão sem porquê em Der Satz vom Grund (1957; há trad. francesa), num capítulo, o quinto dos cursos, intitulado justamente «A rosa é sem porquê». Aí começa por mostrar como o princípio da razão suficiente, enunciado por Leibniz (1646-1716), não se aplica à primeira metade do primeiro verso, ainda que se aplique à segunda metade. De facto, o princípio da razão suficiente diz que nada é sem razão, nada é sem porquê - todavia, «[a] rosa é sem porquê», mas «floresce porque [sublinhado meu] floresce». Aliás, Heidegger faz confluir «[a] rosa é sem porquê» com «[n]ão cuida de si própria» e «floresce porque floresce» com «não pergunta se a vemos» (distanciando-se, assim, do homem). Para concluir este capítulo de o princípio de razão, escreve Heidegger (são as últimas linhas; a tradução é minha):

Mas podemos acentuar também de modo diferente [dar uma outra «entoação» à formulação habitual: Nihil est sine ratione]: Nihil EST sine RATIONE. Nada é sem razão. Ou, na forma afirmativa: Todo sendo (enquanto sendo) tem uma razão. De que fala, então, o princípio de razão?

Algumas linhas atrás tinha escrito:

O princípio de razão nada afirma directamente tocando o ser da razão [é Heidegger quem sublinha].


[A tradução dos dois poemas é de José Augusto Mourão].

8.8.19

Da(s) greve(s)

Uma greve sempre foi, no limite, uma forma de chantagem - fosse sob a forma de greve selvagem, de teor anarco-sindicalista e/ou anarquista, fosse sob a condução dos aparelhos sindicais comunistas e/ou trotskystas. Neste caso, havia um certo cuidado com o povo - o que se traduzia no dia da semana (regra geral sexta-feira) e no número de dias de greve (nunca, mas nunca, por tempo indeterminado). O povo sempre era o povo, porque, afinal, os grevistas também eram o povo. 

Com a recente greve dos estivadores, dos enfermeiros e desta possível greve dos camionistas tudo mudou. Desde o fundo da greve, pelo menos existente em alguns sectores afectos aos comunistas, e que foi substituído por uma espécie de saco azul de incerta proveniência, aos seus mentores, um numa entidade cujo estatuto e papel não é apoiar greves, outro alheio à profissão. Creio que os estivadores sempre tiveram um fundo de greve, como os maquinistas. 

Daqui decorre que esta chantagem tem a ver com a voracidade de poder (ou contra-poder) de pretensos líderes intocáveis, o que torna a greve em algo irracionalmente ditatorial. Sinais do populismo que atravessa o ocidente, se é que ainda o há. Sinais do nacionalismo neo-fascista que atravessa o ocidente, se é que ainda o há.



3.11.18

Publicações


1. Poesia

a memória da invenção, col. Exercício de dizer, Porto, 1976.

A idade do olhar, in Exercícios de dizer, col. Exercício de dizer, Porto, 1977, pp. 56-64.

Aí a sombra: o dizer, ed. Caminho, Lisboa, 1990.

Matéria de olhar, Limiar, revista de poesia, nº 10, Porto, 1998, pp. 33-36.

O caminho da definição, ed. Mortas, Porto, 2002. [Este livro, bastante irregular, intitulava-se inicialmente Onde olhar e dizer são uma e a mesma coisa]. 



Os livros que se seguem foram publicados no Scribd. Não possuo a data da sua conclusão, nem me interessa. Mas, creio que a ordem é esta - ainda que com Aí a sombra: o dizer, Matéria de olhar, e parte de Onde olhar e dizer são uma e a mesma coisa (volto ao título inicial e hei-de escolher em breve o que se há-de manter) constituam um único livro, esse, sim, com o título Caminhos da definição.









2. Da poesia e da filosofia





3. Tradução

Poemas de Nietzsche. [Apenas iniciada].



4. Ensaio

a. Filosofia





O injusto. [Não está terminado].





b. Artes visuais

Sobre arte, Galeria Quadrado Azul, Porto, 1993.

Rui Aguiar. Açoriana. A ilha e a luz (também com colaboração de Fernando Pernes, Nicole van Wassenhoven), Galeria Quadrado Azul, Porto, 1993.





c. Literatura portuguesa