Creative Commons License
Letra corrida by Jose Fernando Guimaraes is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Based on a work at http://letracorrida.blogspot.pt.

24.7.16

Algumas notas sobre o terror(ismo), hoje

1. Nice, Munique. Num como no outro caso logo se ligou o terror ao Daesh, ao autoproclamado Estado Islâmico (EI). Todavia, o que se veio a descobrir foi que se tratava de "lobos solitários" com códigos de conduta próprios e individuais. Porém, a forma como a comunicação social tratou estes casos ampliou o terror e, num primeiro momento, deturpou os factos (no caso de Nice, o próprio poder político francês foi cúmplice dessa deturpação). O EI agradece.

2. O que une estes dois "lobos solitários"? Algo confuso, nebuloso, em torno de uma ideologia da extrema-direita, ou com ecos disso, xenófoba, nacionalista, em busca de auto-afirmação mimética. Algo que apela a ser visto, isto é, que apela à mediatização (e as cadeias de televisão servem o prato a quente). Algo como a candidatura de Trump made in USA - só que suicidária, nestes dois casos, como, aliás, nos casos made in USA, onde o racismo vem cada vez mais à tona.

3. O que não é novidade desde finais do século XIX e princípios do século XX. Aí, todavia, havia marcas ideológicas evidentes. Agora, o confuso, o nebuloso são apenas um indicador de um eu perdido na multidão, (auto-)rejeitado, de um eu desagregado e desagregador, de um eu sacrificial - um eu à procura do próprio eu, finalmente da sua auto-justificação, uma auto-justificação mimética assumida. O que é totalmente diverso da estratégia do EI. Neste, a estratégia é global, narcótica. Nos outros, local, narcísica. O terror, contudo, é o denominador comum.

12.7.16

Amadeo: mais fases do que a lua




Este é um dos trabalhos do último período de Amadeo, Zinc (1917), presente na exposição do Grand Palais. Uma exposição mais do que merecida, sem dúvida, depois de nos anos 1910 ter feito de Paris o seu quartel-general (como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita) - com algumas idas a Manhufe, por onde fica durante a guerra mundial de 1914-1918, morrendo precisamente em 1918, vítima da pneumónica. E, além disso, uma exposição bem montada, apesar de lhe faltarem contextos (há apenas dois: um Modigliani e um Brancusi, o que é manifestamente pouco se se comparar, por exemplo, com as actuais exposições de Rousseau no Orsay ou de Klee no Pompidou). Adiante.

Qual a matriz ou as matrizes da obra pictórica de Amadeo? Ele próprio diz que é impressionista, cubista, futurista, abstraccionista. O que até é verdade - uma meia verdade. Mais tarde, será marcadamente expressionista. Mas, também ele próprio diz que tem mais fases do que a lua. E talvez esta afirmação contextualize uma obra pictórica feita de rupturas. Por outras palavras: não há um fio condutor na obra pictórica de Amadeo. Esta vive de explosões. E Amadeo tem, de facto, mais fases do que a lua.

Acerca dos XX desenhos, uma ideia notável de marketing, e das ilustrações para A lenda de São Julião o hospitaleiro, de Flaubert, falou-se da influência da tapeçaria e das estampas persas - como se podia falar da influência do simbolismo, da Art nouveau. É verdade. Como é verdade que estes trabalhos vivem de dois pólos: o alto, representado pelo falcão, e o baixo, representado por coelhos que mais parecem peixes - como se a obra pictórica de Amadeo fosse uma cosmogonia. Depois, há o castelo - donde partem cavalos, galgos, cavaleiros, damas. Eis um neo-medievalismo. Eis Manhufe a falar. Como nalgumas paisagens. Como nalgumas máscaras.

Mas, há outras marcas evidentes na obra de Amadeo. Para além de Modigliani e Brancusi, Rousseau, os discos órficos de Delaunay. E, mais tarde, no período da guerra, uma mecanomorfismo aparentado com Léger. E, sempre, a pintura dos primitivos (séculos XIV, XV).

Cosmopolita e terra-tenente, Amadeo faz sínteses. Uma delas é precisamente esta. As outras são visíveis na sua obra pictórica. Ora cromaticamente exaltante. Ora cromaticamente trágica. Ora Meio-Dia, excessivamente solar. Ora Meia-Noite, excessivamente lunar. Como em Hölderlin e Nietzsche, onde Meio-Dia e Meia-Noite significam o a-vir - a ruptura com o niilismo decadentista de finais de oitocentos.


19.


Não, das palavras,
um comércio
bastardo. Antes,
dos bichos,
o silêncio. Silêncio
raiz,
como a palavra
à deriva
no poema,
um relâmpago
de sombra
onde se renasce
mesmo morrendo.

18.6.16

18.



No verão, o calor acende a boca,
mesmo a dos montes. E, de repente,
as árvores são esboços
na paisagem. Que a água impede
a custo, enquanto os bichos
fogem e o barulho cresce. O calor
também. E as mãos enchem-se
de fuligem. E não conseguem
suster o desenho que as foi.

17.


O vinho trespassa
o sangue como a seta
do anjo, a rosa
que inebria a boca
dos cães, a sua delapidação
súbita quando o movimento
nasce, um traço de ar
e fogo, que a terra empluma
no focinho e na sede,
apenas um fôlego
aberto, um esmeril
na forja, esmerado. Depois,
muito depois, o silêncio,
e dentro do silêncio,
a palavra, a que chama
em chamas: aqui ou poema.

14.6.16

Auto-retrato como playboy dada

 [pormenor]

Em Tableau Rastadada, 1920, uma foto-montagem, Picabia apresenta-se como o falhado (raté), o farcista (loustic), o gigolo (rastaquouère), o palhaço de sorriso sardónico e chapéu ridículo, o playboy. Este auto-retrato era para uma antologia, não realizada, Dadagloble, um projecto de Tristan Tzara, um dos nomes primeiros do movimento dada, e de que Picabia era co-editor.

4.4.16

O injusto

Foi publicado no Scribd, com outro capítulo, e totalmente revisto, o estudo com o título O injusto. Este estudo é para continuar a ser escrito. Além disso, foi-lhe acrescentado, como uma primeira parte, o estudo Que fazer? Este estudo desdobra-se em dois textos: 1. Visível; 2. Invisível.

13.2.16

16.

Com a tempestade
não é a paisagem
que se embacia
– é o olhar,
mesmo o dos bichos,
súbita espera. De quê?
De quem? Acaso
da paisagem,
uma outra? Do estranho
que passou um dia
no trilho? Da chuva e do vento
que paisagem e estranho
sulcaram até ser noite
no olhar dos bichos
e a palavra névoa?

1.2.16

15.


Que luz
se abre por dentro
dos ossos,
quase água
amanhecida, a que lavra
os campos
e espanta o olhar
dos bichos? Que luz
ou vinho
velho no silêncio
escurecido
das adegas? Que luz
ou palavra,
a que se abre
ao sangue
ainda dormente
e desperta?