21.12.09

Cézanne: o corpo da abstracção_1. A errância

Cézanne_Les grandes baigneuses, 1895_1906, Barnes Foundation

[Apud The Artchive; a Barnes Foundation não concede a visualização da imagem]

Banhistas enquadradas por duas árvores que traçam, quer as árvores quer as banhistas, uma diagonal à tela. Todavia, essa diagonal serve para realçar a linha que, dando coerência ao grupo, destaca duas banhistas: a do lado esquerdo e do lado direito. Depois, o verde escuro das árvores, os brancos sujo, os ocres, os rosas, os verdes, os castanhos dos corpos - e a cor dos cabelos, entre os castanhos e o ruivo. Depois, ainda, os brancos sujo das roupas - da mesma cor das nuvens. Por fim, no primeiro plano, um cesto de fruta (situando as três banhistas do lado esquerdo, em particular a mais à esquerda), um cão (situando as quatro banhistas do grupo central), uma melancia partida a meio (metáfora do sexo feminino?) (situando as banhistas do lado direito, em particular a encostada à árvore). Todavia, há aqui algo a destacar: as figuras do grupo central, seis figuras, erram entre o lado esquerdo e o centro (caso de duas figuras) e erram entre o lado direito e o centro (caso de quatro figuras). Dir-se-á: isto deve-se ao esforço de Cézanne para autonomizar as figuras. Talvez. Mas o que dizer das figuras que estão de pé (três figuras)? O que fazem? E o que dizer das figuras que estão sentadas (cinco figuras)? O que fazem? E o que dizer da figura (sentada?) tapada pela árvore do lado direito? O que faz? Que Baigneuses da Barnes Foundation trata de uma cena recorrente da história da pintura (renascimento, barroco), não há a mínima dúvida. Mas, qual o seu significado? Porque é que as figuras parecem oscilar - movimentar-se, mesmo - dentro da tela? Qual o significado dessa errância?

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20.12.09

A pedra

A pedra é insuspeita fundação,
abrigo,
recolhimento, mesmo. E, sendo-o,
é água,
musgo,
folhas caídas no desamparo
da geada, do estio,
onde excesso é sinónimo de vertigem,
rudeza. A rudeza da seiva,
que é a da pedra.

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17.12.09

La Subversion des images. Surréalisme, Photographie, Film

13.12.09

Pissarro back to Courbet

Camille Pissarro, Deux jeunes paysannes, 1892

Greenberg sublinha a marca de Courbet na obra de Pissarro. T J Clark (Farewell to an Idea) sublinha essa marca e aponta, ainda, para outras marcas: Puvis de Chavannes, Millet, Monet (o opositor de 1891), Gauguin (o inimigo), Seurat. E para o diálogo teórico que Pissarro tem com o anarquismo.

Estamos em 1892 e Pissarro deixa de lado os pôr-do-sol - apesar de insistir nas pastorais. Mas, esta pastoral tem algo de particular: duas figuras em primeiro plano. Noutras pastorais, as figuras de Pissarro ficam num plano intermédio. Qual, então, o porquê do grande plano das figuras nesta pastoral de 1892? A articulação entre a pastoral e a pintura de história (no sentido da des-construção operada por Courbet - e, por essa via, demarcando-se evidentemente de Millet, assim como de Puvis de Chavannes)? O jogo entre a passividade da figura do lado esquerdo e a actividade da figura do lado direito (de acordo com a análise que Fried faz da pintura de Courbet)? Ou, então, a contradição entre a cidade (subentendida) e o campo (explicitado no seu limite)?

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7.12.09

Poesia: tentativa de uma definição

Podia-se dizer: é a voz dos deuses, a voz de Deus. Mas, isto é apenas uma analogia, não atinge o centro da definição. Contudo, se formos por outro lado, o da imagem, talvez nos aproximemos do centro da definição. Porque a poesia sempre foi a des-construção do real. E sempre manteve essa des-construção em suspenso. Ao contrário das artes visuais, por exemplo. É como se cada poema fosse uma fotografia im-possível de se ver - porque demasiado desfocada ou demasiado nítida. Ou seja, a des-construção em suspenso do real implica a demasia. E a demasia implica o mesmo poema. Sempre.

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29.11.09

Citação

If I cannot have the proletariat as my chosen people any longer, at least capitalism remains my Satan.

T J Clark, Farewell to an Idea.

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21.11.09

O poder

O poder é a cegueira despótica, larvar. É o oposto da cegueira que ilumina. Nesta, somos confrontados com o abismo que nos habita. E não perguntamos com o rei de Le roi se meurt, de Ionesco: Pourquoi suis-je né si ce n'était pas pour toujours? Porque aqui, nesta pergunta, está o poder.

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