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Letra corrida by Jose Fernando Guimaraes is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
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15.1.16

Um caminhar pelas (minhas) livrarias do Porto (1966-2000)


[Livraria Chardron, depois Lello & Irmão, Porto, fotografia de Aurélio Paz dos Reis (1906)]

Quando comecei a ir à Lello (rua das Carmelitas), há perto de cinquenta anos, os dois lados em baixo tinham balcões corridos, interrompidos no meio para passagem. No da direita ou ao fundo, junto às escadas, onde havia uma escrivaninha de tampo de correr, estava o senhor Domingos - da geração dos últimos livreiros do Porto, dos quais dou conta implícita na referência às restantes livrarias-editoras. Na Lello havia tertúlias. E as pessoas que iam às tertúlias da Lello, iam também às tertúlias da Sousa & Almeida, que era fundamentalmente um alfarrabista e editor na rua da Fábrica, do outro lado do café Estrela d' Ouro. Depois, a Lello começou a decair. Como decaiu a Tavares Martins, em frente aos Lóios - outro lugar de tertúlias, neste caso dos apaniguados do Estado Novo, regra geral professores universitários de Filosofia e História, caso de António Cruz, e onde aparecia o cineasta do regime António Lopes Ribeiro. Esta decadência aconteceu pelos anos 1980-1990. Entretanto, a Figueirinhas, na Praça da Liberdade, à beira da cervejaria Sá Reis e das confeitarias Atheneia e Arcádia, fechou. Pouco mais tarde, fechou a Século (com o prestável senhor Brandão), na rua de Sá da Bandeira. Entretanto, a Latina, na rua de Santa Catarina, foi passada. E a própria Leitura, que editou alguns livros, poucos, é certo, descaracterizou-se com a saída de Fernando Fernandes, e acabou por ser passada. Antes disto, a Internacional (destaque para o senhor Reis), depois Bertrand, na rua 31 de Janeiro, descaracterizava-se. Aliás, quer a Chardron, depois Lello & Irmão, a Figueirinhas, a Tavares Martins, a Latina e, obviamente, a Bertrand foram, ainda, editoras. Restam, ainda, como livreiros desse tempo, o Nuno Canavez da Académica, um alfarrabista de peso, onde ia Mário Soares aquando das suas deslocações ao Porto, e, muito mais novo, o filho do Manuel Ferreira, outro alfarrabista de peso, o Herculano Ferreira, que herdou o saber e a prática do pai. Agora, tirando estes dois e uns poucos mais, muito poucos, aliás, e bastante irregulares no depósito livreiro, resta comprar on line nalgumas páginas de alfarrabistas, nas amazon, nas fnac, ou directamente às editoras.

Para quem estiver interessado no tema, há este livro: Carlos Porto, Livrarias & livreiros. 1945-1994. Histórias portuenses, Livraria Leitura, Porto, 1994, apesar de bastante focado na Divulgação, mais tarde Leitura.